Uma pesquisa inédita desenvolvida na Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp, em São Paulo, investigou os reflexos da falta de reconhecimento profissional no bem-estar psicológico dos trabalhadores. O estudo, conduzido pelo pesquisador Ricardo Bertoni Pompeu, resultou na tese de doutorado "Reconhecimento no ambiente de trabalho: indo além da Justiça Organizacional" e traz diversos relatos de funcionários de variados setores sobre a exposição contínua a riscos ocupacionais geradores de adoecimento.
A inspiração para o trabalho surgiu da convivência do pesquisador com alunos da Fatec de Americana, no interior paulista, formados majoritariamente por jovens de baixa renda que acumulam estudos e jornadas profissionais. Segundo o levantamento, esses trabalhadores enfrentam cobranças constantes por aquilo que não realizam, sob a premissa de que o esforço nunca é suficiente. O estudo fundamenta-se na Teoria do Reconhecimento, de Axel Honneth, e na Psicodinâmica do Trabalho, de Christophe Dejours.
A pesquisa detalha o conceito de "trabalho real", definido como o esforço invisível empreendido na execução de tarefas, englobando dimensões cognitivas, físicas, afetivas, emocionais e psíquicas. O trabalho real contrasta com o "trabalho prescrito", focado estritamente em metas e resultados imediatos, ignorando o desgaste oculto que acaba por adoecer os colaboradores.
Novas patologias organizacionais
Com base em 18 entrevistas realizadas com trabalhadores de 20 a 40 anos de diferentes setores, o estudo identificou o funcionamento tóxico de algumas empresas e cunhou dois novos conceitos patológicos:
- Contingencialidade: transforma o funcionário em um "just in time" humano, convocado apenas para atender demandas imediatas sem considerar sua vida pessoal, estudos, expectativas ou necessidades, descartando-o após o uso.
- Disjuntividade: refere-se ao rompimento da temporalidade e ao apagamento da história profissional, valorizando exclusivamente o desempenho imediato e impossibilitando a construção de uma trajetória reconhecida.
Entre os relatos verificados, destaca-se o caso de um vendedor que aceitou reduzir sua renda ao abrir mão de comissões para assumir um cargo de subgerente, acabou endividado, não recebeu a vaga prometida e ainda foi encarregado de treinar o novo contratado, desenvolvendo sintomas como gagueira e ansiedade.
Regulamentação e ceticismo
Desde 26 de maio de 2026, as empresas brasileiras são obrigadas a identificar, avaliar e gerenciar fatores de risco psicossociais por meio do Programa de Gerenciamento de Risco (PGR), incorporando questões como metas abusivas, jornadas excessivas, sobrecarga e assédio às diretrizes da NR-1. Contudo, o pesquisador demonstra ceticismo quanto à efetividade da medida, avaliando que muitas organizações podem adotar a documentação exigida apenas para se defender de fiscalizações, tratando os afastamentos como falhas individuais e não como problemas estruturais da organização laboral.
