Um levantamento realizado pelo NetLab, laboratório vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), indica que a plataforma Kwai não cumpre integralmente as exigências estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para a publicidade político-eleitoral, o que dificulta a fiscalização de anúncios pagos.
O estudo avaliou a Biblioteca de Anúncios Políticos ou Eleitorais do Kwai com base em 11 critérios fundamentados nas normas da Justiça Eleitoral. O levantamento foi concluído em 16 de setembro de 2026. Conforme a pesquisa, três critérios foram integralmente cumpridos, cinco não foram atendidos e três apresentaram atendimento parcial ou não puderam ser verificados de forma plena.
A pesquisa enfatiza que o problema central apontado não é a circulação comprovada de anúncios irregulares na rede social, mas sim a ausência de condições adequadas para averiguar de maneira abrangente se isso ocorre. O NetLab informou que o relatório será apresentado ao TSE e que análises semelhantes serão conduzidas em outras plataformas que disponibilizam anúncios, como a Meta (Facebook e Instagram) e o TikTok.
A regulamentação eleitoral determina que o cumprimento das obrigações de transparência constitui requisito para o credenciamento de empresas interessadas em fornecer o serviço de impulsionamento eleitoral pago por campanhas.
Principais descumprimentos apontados
O estudo do NetLab destacou cinco falhas principais na biblioteca de anúncios do Kwai:
- Gastos: os valores são divulgados apenas em faixas amplas (como intervalos de R$ 0 a R$ 500 para despesas de até R$ 5 mil), sem informar a quantia exata desembolsada por anúncio.
- Alcance: a plataforma apresenta intervalos amplos de exibições (a maioria indicada como "menos de 5 milhões de impressões"), sem exatidão sobre o número de pessoas atingidas.
- Audiência: ausência de dados detalhados sobre o perfil do público que efetivamente recebeu a publicidade.
- Busca: impossibilidade de pesquisar conteúdos por termos de interesse ou palavras-chave, restrição que obriga a busca prévia pelo nome do anunciante.
- Coleta: falta de uma API (interface de programação de aplicativos) que permita a extração automática de dados para análises em escala.
Marie Santini, diretora do NetLab, declarou que as limitações impedem a verificação de publicidade irregular. Segundo ela, a plataforma possui grande audiência no Brasil — concentrada principalmente nas classes C, D e E —, superando em número de usuários o LinkedIn e o X. "O TSE tem que proibir o Kwai de rodar anúncios, porque ele não está atendendo às resoluções. E isso pode estar interferindo na eleição", afirmou a diretora.
Posicionamento do Kwai e do TSE
Em nota enviada ao g1, o Kwai declarou que seu Plano de Conformidade Eleitoral para 2026 passou por revisão e aprovação do TSE, e que suas ferramentas foram estruturadas para cumprir a regulamentação. A empresa pontuou que o acesso à ferramenta para extração automática de dados para análise de anúncios em escala é viabilizado mediante solicitação pelo Portal de Aplicação da Lei, acrescentando que "eventuais falhas técnicas identificadas em seu funcionamento serão analisadas pelas equipes responsáveis, com a adoção dos ajustes necessários, quando aplicável".
Procurado, o Tribunal Superior Eleitoral informou que o conteúdo do relatório está sob avaliação e que adotará providências em conformidade com a resolução que rege a propaganda eleitoral. Em 16 de julho de 2026, o Kwai participou de uma reunião com o presidente do TSE, ministro Nunes Marques, e representantes de plataformas digitais para firmar compromissos contra a desinformação, mantendo colaboração com o tribunal para exibir orientações oficiais sobre o pleito de 2026.
