A pesquisa sobre a Doença de Creutzfeldt-Jakob
A Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), diagnosticada no influenciador Lito Sousa, de 59 anos, é o objeto de um estudo detalhado conduzido por pesquisadoras brasileiras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A investigação foca na proteína ligada à origem da DCJ, que pertence a um grupo raro de condições neurológicas conhecidas como doenças priônicas. O trabalho foi publicado na prestigiada revista Science Advances e contou com o suporte tecnológico da linha de luz Cateretê do Sirius, o acelerador de partículas de 68 mil metros quadrados localizado no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Inaugurado em 2018, o Sirius é considerado a maior e mais complexa infraestrutura de pesquisa já construída no Brasil.
Entendendo as Doenças Priônicas
As doenças causadas por príons, ou encefalopatias espongiformes transmissíveis, formam um grupo de enfermidades neurodegenerativas com longos períodos de incubação que podem afetar tanto seres humanos quanto outros animais. Entre as mais conhecidas estão a Doença de Creutzfeldt-Jakob e a Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB), popularmente chamada de “doença da vaca louca”. Embora raras, a principal marca dessas condições é a evolução ultra rápida do quadro clínico, visto que não existem, atualmente, terapias capazes de reverter ou estancar a sua evolução. Além disso, são as únicas doenças conhecidas causadas exclusivamente por proteínas.
As condições são provocadas por um príon, uma partícula de proteína anormal altamente estável e resistente a métodos de desinfecção convencionais. Todos os seres humanos possuem a proteína priônica, codificada pelo gene PRNP, no cérebro. Contudo, quando sua estrutura é alterada para uma forma aberrante, conhecida como PrPSC, ela se torna um agente infeccioso capaz de se ligar à proteína normal e convertê-la também na forma anômala. Esse processo pode ocorrer por razões genéticas ou fatores ainda não compreendidos pela ciência, resultando em danos neurológicos significativos e inevitavelmente fatais. As doenças priônicas podem ser esporádicas, familiares ou adquiridas, sendo a forma esporádica — onde a conversão ocorre espontaneamente por um erro celular — a mais comum em humanos.
Avanços da pesquisa brasileira com o acelerador Sirius
As pesquisas lideradas pela UFRJ e pelo CNPEM investigam o papel fundamental dos íons de cobre no surgimento e na evolução dessas doenças. Mariana Juliani do Amaral, autora principal do estudo, explica que esses íons se concentram na fenda sináptica, região de comunicação entre os neurônios, desencadeando reações químicas nocivas. Eles geram as chamadas espécies reativas de oxigênio (ROS), que reagem com biomoléculas como lipídios, proteínas e DNA, provocando mutações ou a agregação de proteínas. Mariana destaca que as ROS são um ponto em comum em todas as doenças neurodegenerativas, o que torna os insights deste trabalho aplicáveis a outras enfermidades.
Para investigar a dinâmica desses condensados intracelulares, o estudo utilizou a espectroscopia de correlação de fótons de raios X (XPCS) no Sirius. Aline Ribeiro Passos, pesquisadora do CNPEM e coautora do artigo, ressalta que a coerência do feixe do acelerador possibilitou o estudo da dinâmica em escala micrométrica, fornecendo informações quantitativas sobre a fase condensada e a forma líquida ou em gel das gotículas de proteína. Essas gotículas representam um marco na compreensão da interação entre a proteína príon e o cobre. A descoberta reforça a hipótese de que tais estruturas evoluem para agregados estáveis que causam danos celulares.
Segundo Mariana Juliani do Amaral, a descoberta de um estágio intermediário entre a forma solúvel e a agregada oferece novas oportunidades de tratamento. O objetivo seria manter a forma líquida dessas gotículas para impedir a progressão da degeneração. O trabalho foi desenvolvido em conjunto com outras pesquisadoras, incluindo a professora Yraima Cordeiro (UFRJ) e a professora Susanne Wegmann, do DZNE (German Center for Neurodegenerative Diseases), focada em processos de separação de fase.
