A Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC) abriu, de forma inédita, uma investigação regulatória sobre o setor de inteligência artificial para examinar os riscos da tecnologia para a população. A apuração atinge companhias como OpenAI e Anthropic, coincidindo com uma série de episódios em que agentes de IA — sistemas voltados a executar tarefas sem ou com pouca intervenção humana — acessaram ou tentaram invadir plataformas externas.
De acordo com uma autoridade sênior da FTC ouvida pela agência Reuters nesta quarta-feira (30), o órgão planeja emitir intimações formais para coletar dados e exigir depoimentos de executivos das principais empresas desenvolvedoras de inteligência artificial.
Invasão a órgãos do governo da Austrália
A pressão sobre as empresas cresceu após ocorrências na Austrália. Na terça-feira (29), a OpenAI pediu desculpas por uma invasão realizada por um agente autônomo de inteligência artificial em um site governamental australiano. A falha ocorreu em junho, mas veio a público somente na semana passada, sendo tratada pela empresa como o primeiro caso conhecido de IA que invadiu um portal estatal.
O primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, qualificou o episódio como inaceitável e criticou a demora da companhia em reportar o caso ao governo. A OpenAI admitiu falhas na condução da situação e se comprometeu a financiar melhorias na segurança digital local, além de instituir um grupo de trabalho no país.
Segundo a criadora do ChatGPT, o incidente ocorreu durante treinamentos internos, quando um modelo experimental acessou sistemas governamentais sem autorização e encontrou caminhos para entrar em uma área restrita do portal de relatórios estatísticos do Medicare, administrado pela agência Services Australia. O sistema executou comandos, obteve arquivos internos, credenciais e estatísticas agregadas, além de gravar documentos. Até o momento, a investigação da empresa aponta que não houve acesso a prontuários médicos individuais. Outras três agências do governo australiano também foram afetadas pelas ações de agentes de IA, sem registro de vazamento de dados sensíveis.
A OpenAI informou que destinará recursos de seu fundo global de US$ 1 bilhão (R$ 5,10 bilhões) para reforçar a segurança digital de órgãos e empresas australianas, criando um grupo de trabalho para debater o assunto. O diretor de estratégia da empresa, Jason Kwon, tem audiência marcada em uma comissão do Senado australiano em Sydney para o dia 6 de outubro. O governo da Austrália avalia novas obrigações legais para notificação de incidentes por empresas de IA.
Incidente envolvendo a plataforma Hugging Face
Antes do caso na Austrália, em julho, outro agente da OpenAI ultrapassou barreiras de segurança durante testes e invadiu os sistemas do Hugging Face, repositório que reúne ferramentas e modelos de inteligência artificial. Conforme investigações relatadas por pessoas familiarizadas ao tema, a tentativa de fuga do ambiente isolado ocorreu por volta de 9 de julho, enquanto a invasão ao Hugging Face se estendeu de 11 a 13 de julho.
A OpenAI só identificou posteriormente a participação de seu próprio sistema no ataque, tendo o primeiro contato entre as companhias ocorrido por volta de 20 de julho, de acordo com o cofundador do Hugging Face, Thomas Wolf. A OpenAI tornou o caso público em 21 de julho. Quando a empresa enviou o aviso, o Hugging Face já havia recorrido ao FBI para relatar a invasão. A OpenAI declarou à Reuters haver diversas informações incorretas na reportagem sobre o tema, sem detalhar quais seriam, enquanto o FBI evitou comentar.
Reunião com Donald Trump e autorregulação
A ofensiva regulatória da FTC foi divulgada um dia depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reunir-se na Casa Branca com lideranças do setor na terça-feira (29). Participaram do encontro executivos como Jensen Huang (Nvidia), Elon Musk (X e xAI), Mark Zuckerberg (Meta AI) e Sundar Pichai (Google).
Na ocasião, Trump declarou que as empresas de inteligência artificial vão se autorregular e que buscam agir corretamente. O presidente mencionou a análise sobre a criação de um comitê de dez pessoas para supervisionar o mercado e afirmou que os CEOs assinaram um acordo classificado por ele como moralmente vinculante, sem dar maiores detalhes.
O encontro coincidiu com o lançamento do America.gov, portal de IA do governo dos EUA voltado a centralizar serviços públicos e tirar dúvidas dos cidadãos com dados oficiais. Trump também defendeu a expansão de datacenters no país em cooperação com comunidades locais e sustentou que os Estados Unidos mantêm a liderança global no desenvolvimento de inteligência artificial frente à China.
