Os pronunciamentos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de Donald Trump durante a abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada nesta terça-feira (22), demonstram um diagnóstico comum sobre a falência do multilateralismo e da diplomacia internacional, cada um sob a sua própria ótica. A análise foi feita por Carlos Gustavo Poggio, professor de Relações Internacionais do Berea College, em entrevista ao programa Hora H.
De acordo com o especialista, o discurso de Lula teve como foco principal o eleitorado nacional, impulsionado pelo cenário eleitoral. Poggio estimou que cerca de 90% da fala do mandatário brasileiro teve tom de campanha, enquanto apenas 10% abordaram efetivamente temas internacionais ou posições históricas associadas à tradição da política externa do Brasil e do Partido dos Trabalhadores (PT).
O docente apontou ainda que o chefe do Executivo brasileiro abriu sua participação demonstrando insatisfação com a relevância atual da ONU, um tom que acabou sendo ecoado por outros líderes globais ao longo da sessão. Para Poggio, a percepção de que o sistema multilateral e a diplomacia enfrentam uma derrocada foi posteriormente corroborada pela intervenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A postura de Donald Trump e a retórica de força
Embora tenha apresentado uma abordagem internacional praticamente oposta à de Lula, o discurso de Trump também serviu para ilustrar a crise nas instâncias multilaterais. Poggio estabeleceu um paralelo entre a retórica do líder norte-americano e a de George W. Bush nos anos 2000, pontuando distinções no tom e na estratégia. Segundo o professor, embora Bush tenha ordenado ataques ao Iraque sem o aval do Conselho de Segurança da ONU, ele ainda tentava conferir legitimidade aos atos dos Estados Unidos apoiando-se em conceitos como democracia e preservação de instituições.
Em contrapartida, Poggio classificou a postura atual de Trump como muito mais radical quanto à rejeição total à ONU, baseando-se na premissa de que o que conta é unicamente o poderio militar e político dos Estados Unidos. O especialista destacou que a oratória de Trump enfatizou termos como aniquilação, força e a máxima de que os fortes exercem o que podem, omitindo completamente noções como direito internacional, defesa institucional, comércio aberto e democracia — pilares da Ordem Liberal Internacional estabelecida pelos governos norte-americanos no pós-Segunda Guerra Mundial.
Por fim, o professor ressaltou que essa mudança de postura impõe um obstáculo significativo à comunidade global, uma vez que a nação mais influente do planeta passa a agir de maneira frontalmente oposta aos princípios defendidos pelo próprio país até 2016.
