A proibição das apostas de quota fixa, incluindo jogos online e esportivas, pode aliviar o orçamento das famílias e trazer benefícios para empresas listadas na B3. No entanto, o impacto real sobre os lucros corporativos ainda gera incerteza entre especialistas ouvidos pelo CNN Money.
Com a medida, parte dos recursos destinados pelos consumidores a plataformas de apostas — que vinham disputando o orçamento familiar, sobretudo entre as classes de menor renda — pode retornar ao setor varejista. A mudança tem potencial para impulsionar ações de companhias do segmento, embora analistas destaquem que o efeito pode ser de curto prazo e insuficiente para eliminar a incerteza jurídica.
Setores beneficiados e reflexos no consumo
Segundo Beto Saadia, economista-chefe da Nomus Investimentos, bancos e supermercados aparecem entre os prováveis beneficiados iniciais. Na sequência, o impacto positivo pode alcançar farmácias e, de forma mais gradual, o varejo de vestuário e eletrodomésticos.
No segmento de varejo alimentar, Saadia aponta empresas como Assaí e Carrefour, além de marcas como Casas Bahia, Renner e C&A. O especialista ressalta, contudo, que a proibição não resolve totalmente o problema do endividamento da população, que continua pressionando o setor. Para ele, as apostas não explicam sozinhas o endividamento, sendo os juros elevados o fator central de pressão sobre a capacidade de pagamento dos consumidores.
Flávio Conde, head de renda variável na Levante Investimentos, corrobora que os supermercados devem sentir o efeito de forma mais direta, avaliando a medida como particularmente positiva para o setor de atacarejo, com destaque para o Assaí.
Murilo Viana, especialista em contas públicas, também enxerga espaço para melhora no consumo das famílias de menor renda, cenário que pode ser reforçado pelo reajuste do Bolsa Família aprovado pelo governo. Contudo, Viana pondera que os juros em patamar muito restritivo, o endividamento elevado e os sinais de desaceleração da economia impõem limites a essa recuperação.
Preocupações do setor e o impacto financeiro
Durante a divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026, executivos de grandes varejistas já haviam manifestado preocupação com o avanço das apostas online. Rafael Sachete, diretor financeiro do Assaí, apontou as bets, os juros e medicamentos emagrecedores como fatores de pressão sobre as vendas. Na mesma linha, Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza, classificou o crescimento das apostas como um problema econômico e de saúde pública, destacando a retenção de recursos que deixam de circular no consumo.
Antes da proibição, um relatório do BTG estimou que o mercado regulado de apostas alcançou R$ 36,9 bilhões em receita bruta de jogos (GGR) em 2025. O banco avaliou que o redirecionamento de parte desse montante para compras ou amortização de dívidas poderia beneficiar consumidores de menor renda.
Riscos de curto e longo prazo
Apesar da expectativa de alívio no consumo, Murilo Viana e o BTG alertam para o risco de migração de apostadores para redes clandestinas, o que pode afetar as projeções de recuperação. Além disso, a medida provisória publicada pelo Governo Federal na sexta-feira (25) proíbe a oferta de apostas, mas ainda precisa ser analisada pelo Congresso em até 120 dias para manter sua vigência.
Para analistas, a alteração repentina nas regras introduz insegurança jurídica e afeta negativamente o apetite de investidores voltados para o longo prazo.
