A proibição das apostas esportivas, as chamadas bets, no Brasil gerou forte impacto financeiro nos clubes de futebol, que atuaram ao lado das empresas de apostas em um lobby contra o banimento da atividade. A medida provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última sexta-feira estabelece a interrupção imediata de novos aportes por apostadores e determina que todos os sites e aplicativos saiam do ar no país a partir de 6 de outubro.
Tratada pelo governo como uma solução para um problema de saúde pública, a restrição conta com o apoio de 62% dos brasileiros, segundo pesquisa Quaest divulgada na semana passada, enquanto 32% se posicionaram contra e 6% não souberam ou não responderam. Em contrapartida, federações estaduais de futebol, como as de São Paulo e do Rio de Janeiro, assinaram uma carta classificando a proibição como um "golpe fatal para o futebol brasileiro" que poderia levar equipes à insolvência.
Dados de um levantamento da consultoria Convocados e da gestora Outfield apontam que os times da Série A do Campeonato Brasileiro arrecadaram R$ 1 bilhão em receitas diretas de publicidade de casas de apostas online em 2025, representando uma alta de 67% em relação ao ano anterior. O economista Cesar Grafietti, consultor de gestão e finanças do esporte, destacou que o montante equivale a quase 10% do faturamento recorrente total dos clubes, alertando que a perda é ainda maior devido a anúncios em estádios e cotas de transmissão financiadas pelo setor.
Segundo Grafietti, os clubes serão forçados a buscar alternativas no curto prazo, o que pode incluir redução de investimentos e vendas de jogadores com queda de valores. O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, afirmou que o impacto nas receitas do clube pode chegar a R$ 400 milhões em 2027, impedindo a instituição de honrar compromissos assumidos para o ano seguinte. O clube carioca acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) na terça-feira com um pedido para reforçar o processo contra a medida, alegando prejuízo certo e irreversível.
Empresas de apostas online também recorreram ao STF contra a restrição, apontando falta de urgência para a edição da medida provisória. Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), declarou que a proibição ocorreu de maneira abrupta e sem período de adaptação. O Escritório Nacional de Rateio apontou que cerca de R$ 174 milhões foram previstos para direcionamento ao futebol entre janeiro e julho deste ano a partir de recursos da tributação das bets.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu os argumentos de que a proibição prejudicaria o esporte. Durante a semana, ele afirmou que os melhores momentos da história do futebol brasileiro ocorreram quando as bets não existiam, sugerindo que os clubes devem buscar uma gestão competente com a lei que permite a transformação em empresas. Uma reunião convocada pelo governo para ouvir demandas dos times na terça-feira foi adiada sem nova data prevista, e uma fonte ministerial indicou que ações de apoio ao setor só serão consideradas após o diálogo.
Enquanto a norma depende de validação do Congresso Nacional, setores do mercado já avaliam oportunidades. O CEO da farmacêutica Cimed, João Adibe Marques, publicou nas redes sociais que a proibição representa uma chance para a empresa concretizar o sonho de patrocinar todos os clubes do Brasil.
