O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu de forma expressiva a estimativa de crescimento da economia argentina para 2026, cortando a previsão de 3,5% para 2,1%. Com essa diminuição de 1,4 ponto percentual, a pressão sobre a gestão do presidente Javier Milei aumenta para que a estabilização econômica se traduza em uma retomada mais ampla. Para o ano de 2027, quando ocorrerá a próxima eleição presidencial, a projeção de expansão também foi reduzida pelo organismo, passando de 4% para 3,5%.
De acordo com Petya Koeva Brooks, subdiretora do Departamento de Estudos do FMI, a revisão ocorre devido a fatores internos que vão além do contexto internacional. A representante apontou que o cenário é marcado por demanda doméstica mais fraca, condições financeiras restritivas e um processo de transformação estrutural na economia. Esse quadro evidencia o desafio enfrentado pela administração de Milei: manter o ajuste fiscal enquanto o consumo, o crédito e os investimentos ainda não conseguem sustentar uma retomada firme.
A perda de dinamismo também é apontada por projeções do setor privado. Uma pesquisa realizada pela agência Reuters com 32 economistas indica altas de 1,9% para este ano e de 2,6% em 2027. A expectativa é de um ritmo lento de recuperação, com o comércio e a indústria em Buenos Aires apresentando desempenho inferior aos segmentos vinculados à exportação e à produção de matérias-primas. No segundo trimestre, a economia da Argentina registrou retração de 0,6% na comparação com o trimestre anterior.
Analistas consultados pela agência avaliam como provável uma nova queda no terceiro trimestre, o que configuraria uma recessão técnica, caracterizada por dois trimestres seguidos de baixa. Contudo, a confirmação desse resultado depende da divulgação dos dados oficiais, agendada para dezembro. O cenário adverso impõe dificuldades para os planos de Milei de consolidar sustentação política para uma eventual candidatura à reeleição.
Além da atividade econômica fraca, o governo enfrenta o desafio da aceleração nos preços. Conforme dados informados na terça-feira, 13, pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), a inflação subiu de 1,7% em agosto para 1,9% em setembro. No acumulado do ano, o índice atingiu 23,6%, enquanto em 12 meses alcançou 33,4%. O avanço foi impulsionado por tarifas e preços sazonais, embora a inflação subjacente tenha recuado para 1,7% ao excluir esses componentes. O FMI também revisou para cima a sua estimativa de inflação média anual para 2026, elevando o índice de 30,4% para 32,5%.
Diante desse contexto, o ministro da Economia, Luis Caputo, realizou uma reunião com a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, com o objetivo de avançar na terceira revisão do acordo argentino. Caso aprovada, a tramitação pode liberar cerca de US$ 869 milhões. Segundo o ministro, a atuação fiscal disciplinada do governo recebeu elogios de Georgieva, mas as tratativas seguem em aberto. Um dos entraves é o desempenho fiscal do primeiro semestre: embora tenha apresentado superávit primário, o país ficou aquém da meta acordada com o Fundo e precisará requerer uma dispensa pelo descumprimento, exigindo que Caputo assegure financiamento com a atividade em desaceleração.
Apesar das dificuldades, o FMI projeta uma recuperação a partir do último trimestre, impulsionada por investimentos, exportações de energia e agricultura, além de condições financeiras menos restritivas. Para o governo de Javier Milei, o principal teste será expandir esse avanço econômico para um número maior de setores e trabalhadores antes do pleito de 2027.
