O governo do Iêmen, que conta com o apoio da Arábia Saudita, declarou o início de uma ampla operação militar voltada a conter os avanço recentes do grupo rebelde houthi, apoiado pelo Irã. No mês anterior, os houthis realizaram uma ofensiva-relâmpago pela costa do Mar Vermelho, com a qual assumiram o controle de um importante porto e elevaram as preocupações relativas à segurança da navegação internacional na área.
Em um discurso televisionado realizado no domingo (4), o presidente do Conselho Presidencial do Iêmen, Rashad al-Alimi, declarou que as operações militares têm a finalidade de retomar os territórios que ainda permanecem sob o controle dos houthis e restabelecer a autoridade do Estado em todo o território nacional.
A ofensiva já era amplamente esperada após dezenas de ataques aéreos sauditas contra posições dos houthis e novos avanços do grupo no sul do Iêmen. Al-Alimi declarou que a decisão de iniciar a operação ocorreu em decorrência da “mobilização, escalada e ataques contínuos das milícias houthis, assim como suas ameaças contra civis, instalações, países vizinhos e rotas marítimas internacionais”.
Os houthis relataram ataques aéreos sauditas contra a capital, Sanaa, no sábado (3) e novamente no início deste domingo. A coalizão liderada pela Arábia Saudita não confirmou os ataques.
Como retaliação a mais de 50 ataques aéreos contra Sanaa e outras localidades, os houthis afirmaram neste domingo que atingiram instalações estratégicas de energia na Arábia Saudita. “O primeiro ataque teve como alvo a empresa Aramco na capital saudita, Riad, e o segundo teve como alvo a Aramco na região de Khurais”, informou um comunicado militar dos houthis, que afirmou ter provocado grandes incêndios nos locais atingidos. As autoridades sauditas não se manifestaram sobre os ataques reivindicados.
A retomada dos combates já obrigou dezenas de milhares de pessoas a deixar suas casas. Os próximos acontecimentos podem alterar o equilíbrio de poder no Iêmen, prejudicar ainda mais a navegação pelo Mar Vermelho e agravar uma crise humanitária que já é considerada grave. Conforme alerta emitido na semana passada pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA), três em cada quatro famílias em algumas áreas do Iêmen estão passando fome devido ao aumento dos combates.
No início de setembro, os houthis tomaram uma extensa área da costa do Mar Vermelho até o sul, alcançando a região do estratégico estreito de Bab al-Mandeb, apontado como um ponto de passagem fundamental para o comércio marítimo em direção ao Oceano Índico. O grupo anunciou que navios sauditas que tentarem utilizar o estreito serão alvos, o que aumenta a pressão sobre as rotas globais de comércio e energia.
Desde o fim de julho, os houthis lançaram mísseis balísticos e drones contra diversos alvos na Arábia Saudita, incluindo instalações industriais e de energia. Uma grande parcela dos combates recentes ocorreu na região sul de Taiz, onde os houthis tentam isolar as forças governistas na capital regional. No domingo, o grupo afirmou ter tomado uma importante rodovia que liga Taiz a Áden, sede do governo iemenita. Taiz é a terceira maior cidade do Iêmen, com uma população de várias centenas de milhares de pessoas, e a região abriga milhares de soldados das forças governistas.
Mais a leste, na região de Al-Jawf, os houthis afirmaram no domingo ter causado pesadas baixas às forças do governo com uma série de ataques de mísseis e drones enquanto elas se reposicionavam para a nova ofensiva. As forças do governo iemenita, apoiadas por ataques aéreos sauditas e por um bloqueio das áreas controladas pelos houthis, combatem o grupo há mais de uma década.
Na segunda-feira (5), autoridades da Arábia Saudita se reunirão com representantes da Turquia e do Paquistão, em Riad, para discutir os acontecimentos na região. O encontro faz parte do Comitê Estratégico e Político de Defesa, um pacto de defesa inspirado na Otan criado em agosto e voltado à cooperação militar e de segurança na região. O Ministério das Relações Exteriores saudita afirmou que o acordo “não representa uma tentativa de estabelecer um eixo militar ou um bloco sectário”.
A guerra no Iêmen, iniciada em março de 2015, havia provocado 377 mil mortes até o fim de 2021, entre vítimas de causas diretas e indiretas, conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Mais de 150 mil dessas mortes decorreram de forma direta do conflito armado, enquanto as demais ocorreram em consequência da fome e de doenças provocadas pela crise humanitária da guerra. Uma trégua mediada pela ONU em 2022 levou a um período de relativa redução das hostilidades entre os lados, até que a violência voltou a crescer em agosto.
