A continuidade dos ataques militares e a ocupação de território na Faixa de Gaza têm dificultado severamente os esforços de busca por pessoas desaparecidas soterradas sob escombros, relatam moradores, autoridades locais e organizações humanitárias. Três anos após o início do conflito desencadeado em 7 de outubro de 2023, estimativas da Defesa Civil de Gaza apontam que cerca de 8 mil pessoas continuam desaparecidas, muitas delas sob aproximadamente 61 milhões de toneladas de escombros, segundo avaliação das Nações Unidas.
Moradores como Mohammad Yousef Shalayel relatam perdas devastadoras. Shalayel perdeu sua mãe idosa, irmãos, irmã e filhos após um ataque aéreo em 1 de novembro de 2024, no bairro de Jabalya, norte de Gaza, que reduziu a escombros a casa onde estavam. Devido à ocupação militar de mais da metade do território devastado pelas forças israelenses, Shalayel afirma que não conseguiu retornar ao local e que seus familiares continuam desaparecidos.
De acordo com o direito internacional humanitário, as partes envolvidas em um conflito armado têm a obrigação de realizar buscas e recuperar restos mortais, conforme lembrou Pat Griffiths, porta-voz do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Jerusalém. No entanto, o avanço militar, as restrições impostas por Israel à entrada de maquinário pesado e a demarcação da chamada "linha amarela" dificultam o acesso a áreas onde corpos podem estar soterrados.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rejeitou em agosto um plano de estabilização de 15 pontos, declarando que as forças israelenses não se retirarão até que o Hamas seja efetivamente desarmado. Por sua vez, o grupo armado exige o fim dos ataques e a retirada para a linha amarela. A agência israelense COGAT informou que permite a entrada de equipamentos essenciais, mas ressaltou que maquinário pesado e materiais de reconstrução não serão liberados enquanto o Hamas mantiver suas armas.
Na cidade de Gaza e na região central, equipes de campo da Defesa Civil recuperaram cerca de 1.000 corpos sob os escombros desde outubro passado, segundo Mahmoud Basal, porta-voz da instituição. Contudo, as operações contam com apenas uma escavadeira na cidade de Gaza e outra na região central. Autoridades palestinas afirmam que seriam necessários 10 tratores de esteira, 10 escavadeiras e 30 caminhões para concluir as buscas.
A falta de recursos e a ausência de testes de DNA agravam a crise humanitária. O Dr. Ahmad Dheir, um dos três médicos legistas restantes no enclave, aponta que o bloqueio imposto por anos por Israel e Egito limitava suprimentos médicos, e a destruição da infraestrutura de saúde prejudicou ainda mais a identificação. Na ausência de câmaras frigoríficas e com frequentes quedas de energia, equipes de saúde recorrem a tipagem sanguínea e exames laboratoriais inconclusivos.
Em Deir al-Balah, um local conhecido como o "cemitério dos desaparecidos" abriga cerca de mil corpos não identificados sepultados pela Defesa Civil, que trabalha com agências internacionais na criação de um sistema digital com números de série para futuras identificações por DNA. Enquanto isso, sobreviventes como Suha al-Sharif, cujo filho Jihad foi morto em novembro de 2023, enfrentam o sofrimento da perda ambígua e a incerteza sobre o paradeiro de seus entes queridos.
