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Hungria vai divulgar arquivos da polícia da era comunista na internet

A Hungria divulgará dezenas de milhares de arquivos da polícia secreta da era comunista em um banco de dados online a partir de novembro, permitindo buscas públicas sobre colaboradores e informantes.

Redação•10 de out. de 2026, 09:30
Hungria vai divulgar arquivos da polícia da era comunista na internet
Imagem: site

Hungria vai divulgar arquivos da polícia da era comunista na internet

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A Hungria se prepara para disponibilizar dezenas de milhares de arquivos da polícia da era comunista em um banco de dados público na internet. A medida, considerada histórica, permitirá o acesso a listas com nomes de informantes e colaboradores dos antigos serviços de segurança do Estado.

A divulgação está programada para o dia 4 de novembro, data que coincide com o 70º aniversário do levante antissoviético húngaro de 1956 — ano em que tanques soviéticos entraram em Budapeste para sufocar uma revolta pró-democracia iniciada em 23 de outubro. A iniciativa atende a uma promessa do primeiro-ministro Peter Magyar de tornar públicos os registros mantidos no subsolo de um arquivo em Budapeste, possibilitando que a população confronte o passado totalitário.

O regime comunista húngaro chegou ao fim em 1989, mas a abertura completa dos arquivos havia sido adiada anteriormente devido à falta de vontade política de governos sucessivos. Até então, o acesso ficava restrito a pesquisadores ou a cidadãos que solicitassem apenas os próprios registros ou os de parentes próximos. Com o novo sistema, qualquer pessoa poderá realizar buscas no banco de dados online.

O papel dos colaboradores durante a Guerra Fria

Durante o período da Guerra Fria, agências de polícia secreta do Leste Europeu — como a Stasi na Alemanha Oriental e os serviços de segurança da Hungria — recrutavam colaboradores entre a população civil por meio de ameaças, chantagens ou recompensas. Estima-se que entre 1956 e 1989 cerca de 55 mil colaboradores secretos tenham sido registrados no país. Essas pessoas monitoravam vizinhos, amigos, colegas de trabalho e familiares em busca de indícios de dissidência ou influência ocidental, gerando relatórios que frequentemente resultavam em prisões e interrogatórios.

As reuniões entre agentes secretos e colaboradores civis ocorriam muitas vezes em apartamentos no centro de Budapeste, conhecidos como apartamentos K ou apartamentos de conspiração.

Vigilância na cena musical e reações

Na década de 1980, os informantes também frequentavam shows da cena de rock underground em Budapeste, considerada subversiva pelas autoridades. Peter Muller, figura icônica daquela época e conhecido como “Sziami”, recorda que sua banda Kontroll Csoport (Grupo de Controle) apresentou em 1983 a música “Informantes e Provocadores”. A letra trazia versos em que os holofotes eram virados para o público para tentar identificar os agentes. Muller, hoje com 74 anos, relata que quase foi expulso da faculdade, além de ter tido shows proibidos e ter sido interrogado pela polícia. Sua banda punk anterior, “URH”, criada em 1980 e inspirada na frequência de rádio da polícia estatal, também era alvo constante das autoridades.

Apesar de sua própria experiência, Muller expressa sentimentos mistos sobre a abertura tardia dos arquivos. Segundo ele, há desconforto com a ideia de que a sociedade exija uma limpeza ou catarse após tanto tempo, resultando na exposição e humilhação de pessoas que já faleceram ou seguiram em frente.

Detalhes da lei e do processo de abertura

Os registros dos antigos serviços de segurança são administrados pelo Arquivo Histórico da Segurança do Estado Húngaro (ABTL), órgão que aponta a existência de nomes de 50 mil a 60 mil colaboradores. A divulgação foi autorizada por uma legislação aprovada pelo Parlamento em setembro.

Bendeguz Gergo Cseh, diretor do ABTL, definiu a medida como um passo histórico que supera ações tomadas por outras nações do antigo bloco oriental. Cseh pontuou que a Polônia abriu arquivos no passado sem permitir buscas abertas e irrestritas, a Alemanha adotou restrições na lei de 1991 sobre a Stasi, e a República Tcheca não disponibilizou todo o material em banco de dados online. A lei húngara estabelece que a compreensão do passado e a transparência institucional são pré-requisitos essenciais para a democracia.

A liberação ocorrerá em duas etapas, englobando quatro tipos de arquivos a partir de 4 de novembro. O diretor ressaltou que determinados detalhes serão ocultados para resguardar informações pessoais sensíveis, como dados sobre saúde, vícios e orientação sexual. Conforme Cseh, embora seja inadequado fazer julgamentos morais com base nesses dados, a medida possibilita conhecer trajetórias de vida e realizar um confronto profundo com o passado, tanto em âmbito individual quanto social.

Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/hungria-divulgara-arquivos-da-policia-da-era-comunista-na-internet/

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