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Economia

Impacto do tarifaço dos EUA: entenda quando e como os efeitos chegam ao Brasil

Estudos e entidades setoriais avaliam os reflexos das sobretaxas comerciais impostas pelos Estados Unidos e analisam quando os impactos podem atingir a economia e o consumidor brasileiro.

Redação•10 de out. de 2026, 05:30
Impacto do tarifaço dos EUA: entenda quando e como os efeitos chegam ao Brasil
Imagem: site

Impacto do tarifaço dos EUA: entenda quando e como os efeitos chegam ao Brasil

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A imposição de novas tarifas comerciais pelos Estados Unidos a diversos países e ao Brasil tem gerado reações e preocupações no setor produtivo nacional. Apresentadas pelo governo de Donald Trump como uma medida para proteger a indústria americana, as sobretaxas encareceram produtos no mercado dos EUA e já provocam reflexos nas empresas brasileiras, embora o impacto direto sobre o bolso do consumidor exija tempo e ocorra por canais indiretos.

Inflação nos EUA e restrições comerciais

Estudo do Federal Reserve de Nova York divulgado em fevereiro de 2026 apontou que as tarifas adicionaram 2,9 pontos percentuais à inflação dos produtos comprados pelos consumidores americanos até o mês de fevereiro. O mesmo levantamento estimou que a tarifa global de 10% sobre importações, anunciada em fevereiro do mesmo ano, elevaria os preços ao consumidor americano em 2,6% em um período de um ano.

No Brasil, medidas comerciais anunciadas pelo governo Trump em julho fixaram sobretaxas de 12,5% a 25% para diferentes grupos de produtos. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que as duas medidas alcançam conjuntamente 23,1% das exportações brasileiras para os EUA, sendo que 16,5% desse total estão sujeitos a uma sobretaxa acumulada de 37,5%. O MDIC também informou que os EUA representaram 10,8% das exportações brasileiras em 2025, fatia que recuou para 9,6% no acumulado de janeiro a agosto de 2026.

Setor calçadista enfrenta forte retração

Entre os segmentos mais expostos, a indústria calçadista registra quedas expressivas. Nos primeiros oito meses do ano, o Brasil exportou 62,45 milhões de pares de calçados, gerando US$ 541,45 milhões, o que representa recuo de 7,5% no volume e de 16,8% na receita em relação a igual período de 2025. Segundo a Abicalçados, estes são os piores resultados para o intervalo desde 2020.

As vendas para o mercado americano somaram 7,38 milhões de pares por US$ 120,5 milhões de janeiro a agosto, queda de 4,1% no volume e de 22,8% na receita ante o ano anterior. Em agosto, o preço médio do calçado exportado aos EUA caiu 35,4%, atingindo US$ 17,20, movimento atribuído pela Abicalçados a alterações no perfil dos produtos vendidos e à retração em categorias de maior valor, como os calçados de couro.

A entidade destaca ainda que a Argentina, segundo principal destino do setor, reduziu as compras em 51,6% em volume e 55,6% em receita no acumulado até agosto. Como reflexo, a Abicalçados revisou sua projeção e espera queda de 7,1% nas exportações totais de calçados em 2026 (a previsão anterior era de retração de 3,6%).

Enquanto as vendas externas caem, as importações de calçados no Brasil avançam. De janeiro a agosto, entraram no país 33 milhões de pares, alta de 9,6% e montante de US$ 429,7 milhões (crescimento de 11%), com China, Vietnã e Indonésia respondendo por cerca de oito em cada dez pares importados.

Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados, definiu o cenário como um "efeito pinça", combinando a perda do mercado americano e a concorrência dos importados no mercado interno, o que dificulta o escoamento da produção nacional para evitar demissões. A entidade estima a perda de mais de 5 mil empregos diretos no segundo semestre caso as tarifas permaneçam, embora dados até julho mostrassem saldo positivo de 1.740 postos no ano, apesar de recuo de 387 vagas no próprio mês de julho.

Na prática corporativa, empresas como a fabricante Rafarillo, de Franca (SP), precisaram renegociar contratos com compradores americanos, reorganizar linhas produtivas, buscar fornecedores alternativos de matéria-prima e reduzir postos de trabalho, além de buscar novos mercados na América Latina, Europa, África e Ásia, conforme relatou André Ferreira, representante de comércio exterior da companhia.

Indústria de máquinas e o peso do mercado interno

Na indústria de máquinas e equipamentos, o cenário envolve tanto barreiras externas quanto um mercado interno enfraquecido. Dados da Abimaq mostram que, no primeiro semestre, o faturamento do setor caiu 13,6% e as vendas internas recuaram 17%, enquanto as exportações cresceram 12,7%. Os EUA compraram cerca de US$ 3,2 bilhões em máquinas e equipamentos do Brasil em 2025.

José Velloso, presidente-executivo da Abimaq, avalia que a fraqueza do mercado interno e o nível reduzido de investimentos no país pesam mais sobre as demissões do que o tarifaço americano. Segundo o executivo, o faturamento do setor acumula queda de cerca de 17% em quatro anos, com subsetores como máquinas agrícolas registrando recuo de 25% e colheitadeiras de 40%, o que já provocou fechamento de fábricas.

A Abimaq aponta que o impacto do tarifaço também pode alcançar fornecedores locais que não exportam diretamente — por meio da redução de compras de aço, componentes, serviços e transporte —, mas ressalta que os dados atuais não permitem separar isoladamente as demissões causadas pelas tarifas daquelas decorrentes da baixa atividade interna.

Açúcar e etanol

No setor sucroenergético, o açúcar brasileiro enfrenta uma sobretaxa adicional de 25% estabelecida na medida específica para o Brasil, somando-se a restrições e cotas já existentes no mercado americano. Quanto ao etanol, o produto está no centro de divergências comerciais: a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) defende que a política brasileira para biocombustíveis é não discriminatória, atende às regras da Organização Mundial do Comercio (OMC) e contesta a exigência americana de tratamento preferencial para o etanol dos EUA.

Quando e como os efeitos chegam ao consumidor?

Economistas e representantes setoriais apontam que o impacto das tarifas não se traduz em uma alta imediata de preços nas etiquetas brasileiras. Como a taxa incide na entrada dos EUA e é paga pelo importador americano, as empresas exportadoras absorvem custos reduzindo margens, buscam redirecionar excedentes para outros mercados ou para o mercado interno (o que em tese pode conter preços devido ao aumento da oferta) ou reduzem produção e investimentos.

André Matos, CEO da MA7 Capital, avalia que os juros elevados representam um freio mais forte e abrangente para a economia brasileira do que as tarifas americanas, cujo impacto é setorial e regionalizado. Para o consumidor, segundo Matos, o efeito de curto prazo tende a ser neutro ou favorável nos preços, concentrando-se o risco principal no emprego ou em canais indiretos, como a variação cambial: se o cenário comercial externo elevar a percepção de risco e pressionar o dólar para cima, o encarecimento de insumos e combustíveis importados poderá, eventualmente, alimentar a inflação no país.

Fonte: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/10/10/tarifaco-dos-eua-entenda-quando-os-efeitos-podem-chegar-ao-seu-bolso.ghtml

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