Veículos da imprensa internacional voltaram suas atenções para as eleições presidenciais no Brasil, marcadas para domingo (4). Jornais de destaque global, como o americano The New York Times e o britânico The Guardian, publicaram análises focando no papel do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na definição do pleito brasileiro, além de abordarem questões econômicas locais, como o endividamento da população.
A influência americana e a preocupação com o pleito
O The New York Times publicou um artigo questionando se o republicano tentará interferir no resultado eleitoral brasileiro. Segundo o jornal americano, após observar o envolvimento de Trump em outras disputas e sua tentativa de ajudar o pai de Flávio Bolsonaro a evitar a prisão por tramar um golpe, o Brasil busca erguer barreiras de proteção para blindar o processo contra uma possível interferência dos Estados Unidos. Tais esforços englobam monitoramento de lobby estrangeiro e de desinformação, combate a alegações falsas de fraude e busca por apoio em nações da Europa e da Ásia.
A publicação aponta que o governo brasileiro teme pressões de Washington para eleger o senador Flávio Bolsonaro (PL), apontando o compartilhamento de postagens pagas por perfis influentes da direita americana nas redes sociais como reforço a esses temores. Em contrapartida, o diário destaca a desconfiança de aliados de Bolsonaro em relação ao sistema de votação e cita os esforços de Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para fortalecer a credibilidade do processo.
O Brasil como o "grande prêmio" e o bloco pró-Trump
Para o jornal britânico The Guardian, a disputa traz a possibilidade de mais um triunfo conservador na América Latina, o que ampliaria o bloco pró-Trump na região. Analistas ouvidos pela publicação apontam que, devido à proximidade e relações do México, o Brasil é visto como o último país do continente capaz de resistir aos caprichos do líder americano, tornando-se um grande prêmio pelo seu peso econômico e recursos naturais.
O jornal francês Libération classificou Donald Trump como o "elefante na sala" do pleito e pontuou que Lula tenta se posicionar como um contrapeso à influência americana. O diário também relata que Lula chega à reta final com indicadores econômicos e ambientais favoráveis, mas sem conseguir vantagem clara nas pesquisas, em uma campanha marcada por polêmicas.
Endividamento e o setor de apostas
O The New York Times também abordou a crise de endividamento dos brasileiros e a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de proibir as bets no país. A matéria aponta que o crescimento das apostas online agravou o endividamento, com perdas estimadas em US$ 7 bilhões em sites licenciados no ano passado, ante US$ 4 bilhões em 2024. Enquanto a eficácia da medida é debatida, Flávio Bolsonaro criticou a proibição classificando-a como manobra eleitoreira, afirmando apoiar apostas esportivas, mas ser contrário aos cassinos online.
Análises sobre a estagnação e a polarização
A britânica The Economist avaliou que a eleição não trará as mudanças necessárias ao país, apontando que o Brasil segue estagnado apesar de sua abundância em recursos naturais e reservas de petróleo. A publicação destaca que a dívida pública em expansão e a ausência de reformas profundas mantêm os juros elevados. Segundo a revista, nem Lula nem Flávio Bolsonaro parecem confiáveis para combater a corrupção e o aumento dos gastos públicos.
O jornal francês Le Monde enfatizou a polarização entre Lula — candidato do PT que concorre ao quarto mandato aos 80 anos — e Flávio Bolsonaro, representante da extrema-direita e filho de Jair Bolsonaro, preso desde 2025 após condenação por tentativa de golpe. O diário aponta a soberania e o papel do Brasil no Brics como pontos centrais da disputa.
Por fim, o espanhol El País destacou que o Brasil elege seu presidente sob a sombra da ofensiva de Washington para impulsionar governos conservadores. A publicação ressalta que o resultado das urnas indicará se o país resistirá como contrapeso aos Estados Unidos ou se alinhará à guinada à direita observada em outras nações latino-americanas.
