A infraestrutura é apontada como um dos principais desafios para a competitividade do agronegócio no Brasil. Gargalos em setores como transporte, armazenagem, energia e conectividade geram impactos diretos nos custos de produção e dificultam o escoamento das safras nacionais. Diante desse cenário, os programas de governo de Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trazem diretrizes voltadas para obras, concessões, financiamentos e expansão da infraestrutura rural.
Flávio Bolsonaro: propostas para transportes, armazenagem e energia
No setor de transportes e logística, o plano de governo de Flávio Bolsonaro estipula R$ 900 bilhões em investimentos ao longo de quatro anos, englobando rodovias, hidrovias, portos, aeroportos e ferrovias. O documento aponta que os custos logísticos no país correspondem a 15,5% do Produto Interno Bruto (PIB), em comparação a 8,8% nos Estados Unidos. A estratégia prevê a criação de Corredores Logísticos Inteligentes e cita projetos como a Ferrogrão, a conclusão da Transnordestina — com expansão para Paraíba e Rio Grande do Norte — e a Hidrovia do Tapajós. Para o financiamento, a proposta aposta na iniciativa privada por meio de concessões e parcerias público-privadas (PPPs), além de um fundo lastreado na securitização de ativos e imóveis da União e créditos do BNDES direcionados exclusivamente a obras em território nacional.
Em relação à armazenagem, o programa reconhece a insuficiência da capacidade atual em relação ao volume colhido, o que concentraria o escoamento e elevaria a dependência de transportes e terceiros. No entanto, o texto não detalha metas em toneladas, volumes de recursos ou instrumentos específicos de crédito. Na área de conectividade, a proposta visa expandir o acesso à internet em áreas rurais, escolas e regiões de fronteira, dando continuidade aos trabalhos do programa Wi-Fi Brasil. Já no setor elétrico, o plano prevê a modernização de redes de transmissão, incentivos ao biogás e ampliação do transporte de gás natural.
No tocante à irrigação e recursos hídricos, o candidato promete simplificar as outorgas de irrigação, cujo prazo médio atual é de 24 meses. O programa também prevê a conclusão de obras como o Baixio do Irecê (BA) e a execução ou término de projetos como o Ramal do Apodi, Ramal do Salgado, Adutora do Seridó, Canal do Xingó, Ramal do Piancó, Canais do Sertão Baiano, Piauiense e Alagoano, Canal Adutor do Ceará (CAC) e a duplicação do Eixão das Águas do Ceará, além do desenvolvimento de polos de irrigação no Matopiba e no semiárido nordestino.
Lula: foco no Novo PAC, conectividade e segurança hídrica
O programa de governo de Luiz Inácio Lula da Silva aborda a infraestrutura como eixo de desenvolvimento econômico, industrialização e transição energética. Na logística, a proposta apoia-se na continuidade do Novo PAC, na manutenção de aportes públicos e privados, na expansão de concessões rodoviárias e na intensificação de concessões ferroviárias por meio de novos leilões e repactuação de contratos. O balanço apresentado no documento aponta investimentos em infraestrutura de R$ 280 bilhões em 2025, com projeção de R$ 300 bilhões em 2026, além de R$ 1,3 trilhão em empreendimentos que alcançaram 99% dos municípios. A carteira do Novo PAC também contempla energia elétrica, petróleo, gás, fertilizantes, indústria naval e refino.
Em segurança hídrica, Lula propõe ampliar recursos para a revitalização de bacias hidrográficas e infraestruturas hídricas, visando assegurar água para consumo e produção e reforçar a proteção contra cheias e enchentes. No campo da conectividade, a diretriz é reduzir o déficit de fibra óptica em 11% dos municípios e ampliar a cobertura do 5G no campo, priorizando as regiões Norte e Nordeste e as periferias, com apoio do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST). Para a energia elétrica, o plano prevê universalizar o acesso no meio rural com ênfase em fontes renováveis, como solar e eólica, e estimular o aproveitamento de subprodutos da agroindústria para bioenergia e biogás.
Demandas do setor produtivo
Entidades representativas do agronegócio, como a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) e a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), cobram obras estratégicas de escoamento e maior previsibilidade de investimentos. A FPA e a Aprosoja destacaram a urgência de ampliar a capacidade de armazenagem e viabilizar ferrovias como a Ferrogrão e a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (FICO). A Abrapa ressaltou que os gargalos logísticos e as limitações fora da porteira — em rodovias, ferrovias, hidrovias, portos, armazenagem e energia — afetam diretamente a competitividade da cotonicultura brasileira.
