A inovação tem se consolidado como um importante diferencial competitivo para as companhias brasileiras, especialmente devido ao acesso a políticas de fomento voltadas à pesquisa e desenvolvimento (P&D) para destravar aportes. O avanço técnico, contudo, é frequentemente associado a laboratórios e universidades, desconsiderando que o processo também envolve novas instalações, máquinas, conectividade, sistemas elétricos e infraestrutura. Isso gera uma cadeia de demanda que atinge setores como bens de capital, construção, siderurgia, alumínio e cobre.
Segundo a análise, caso o país estimule tecnologias avançadas sem desenvolver simultaneamente a capacidade de produzir os materiais e equipamentos necessários, corre-se o risco de o retorno econômico da transformação digital ser parcial. Para acompanhar o ritmo de inovações como inteligência artificial, computação em nuvem, automação industrial, eletrificação, internet das coisas (IoT) e manufatura avançada, é preciso criar uma base física sólida.
Incentivos fiscais e financiamentos públicos
Os aportes em inovação com impacto na infraestrutura diferem dos investimentos tradicionais porque a organização precisa decidir hoje sobre um resultado incerto. Nesse contexto, ferramentas como a Lei do Bem, a Nova Indústria Brasil (NIB) e linhas de financiamento do BNDES e da Finep auxiliam a viabilizar projetos.
Criada há 20 anos, a Lei do Bem permite que empresas no regime de Lucro Real compartilhem riscos com o Governo Federal. O mecanismo possibilita a dedução de até 34% dos aportes em P&D do IRPJ e da CSLL, redução de 50% do IPI na compra de máquinas e equipamentos para pesquisa, depreciação e amortização aceleradas, além de redução a zero do IRRF em remessas internacionais para marcas e patentes. Dados referentes ao ano-base de 2024 mostram que mais de 4,2 mil organizações acessaram a ferramenta, direcionando R$ 51,6 bilhões para inovação por meio de 14 mil projetos, com renúncia fiscal estimada em R$ 12 bilhões.
Já os financiamentos públicos de órgãos como Finep, BNDES e Embrapii oferecem recursos não reembolsáveis, linhas de crédito e subvenção com juros subsidiados e prazos longos, fornecendo capital abaixo do mercado. Por sua vez, a Nova Indústria Brasil (NIB) é uma política voltada a estimular o desenvolvimento produtivo e tecnológico para ampliar a competitividade internacional, disponibilizando R$ 140 bilhões em recursos até dezembro de 2026 para a modernização do setor.
Desafios na adesão aos incentivos
Apesar dos benefícios, a baixa adesão das empresas permanece como um dos principais gargalos. A Receita Federal aponta que cerca de 230 mil companhias integram o regime de Lucro Real, mas menos de 2% utilizam atualmente a Lei do Bem, indicando uma subutilização do mecanismo, mesmo com a base de beneficiárias tendo triplicado na última década.
O cenário decorre da falta de aculturamento interno para estruturar os processos e do desconhecimento sobre os mecanismos de fomento e regras de elegibilidade. O texto aponta que compreender o que abrange a P&D é essencial para ampliar o alcance dos incentivos existentes em setores tradicionais da indústria, consolidando a inovação na cultura organizacional.
O artigo foi assinado por Rafael Costa, Diretor do Hub Latam do FI Group.
