Mudança de postura em meio ao recorde de visitantes
Jardins zen, paisagens urbanas futuristas e uma cena gastronômica vibrante, combinados com uma taxa de câmbio favorável em relação ao iene, transformaram o Japão em um ímã turístico que tem atraído um número recorde de visitantes nos últimos anos. O número de pessoas que se estabelecem para estadias de longa duração — incluindo para trabalho e estudo — também atingiu um recorde histórico no ano passado, provavelmente devido à segurança confiável e à infraestrutura conveniente que a quarta maior economia do mundo oferece.
No entanto, recentemente, uma série de políticas de imigração mais rígidas impostas pelo governo fez com que aqueles que passaram a chamar o Japão de sua segunda casa se perguntassem: será hora de dizer “sayonara” (adeus)? Este cenário ocorre enquanto outras notícias internacionais destacam que o governo Trump exige que estados informem dados de imigrantes sem documentos, um agente do ICE enfrenta acusação federal por mentir sobre a morte de um imigrante e um brasileiro obtém vitória na justiça dos EUA contra políticas de Trump.
A ascensão da política “Japão em primeiro lugar”
O Japão tem um longo histórico de políticas de imigração rigorosas e uma população homogênea. Contudo, confrontado por uma crise demográfica crescente, o país abriu-se gradualmente para trabalhadores estrangeiros. Mas tais esforços não foram totalmente bem-sucedidos. O excesso de turismo e relatos de residentes estrangeiros desrespeitando regras locais alimentaram a ascensão de uma política de “Japão em primeiro lugar”, remodelando a trajetória de uma sociedade que se tornava mais aberta.
No mês passado, o governo japonês, liderado pela primeira-ministra conservadora Sanae Takaichi, anunciou o aumento de várias taxas de visto em outubro. Pelas novas regras, a residência permanente custará 20 vezes mais — 200 mil ienes (R$ 6.547). O Ministro da Justiça, Hiroshi Hiraguchi, afirmou que o objetivo é criar “uma sociedade ordenada, na qual estrangeiros e cidadãos japoneses coexistam”.
Novas exigências e impactos nos residentes
As mudanças mais drásticas atingem quem busca a residência permanente. A partir de outubro, será necessário comprovar renda superior à média das famílias japonesas. Em abril do próximo ano, os candidatos precisarão comprovar um fundo de previdência equivalente a 30 anos de pagamentos e nível intermediário de proficiência em japonês. Hiraguchi justificou que a revisão garante que os requerentes não se tornem um ônus para o setor público.
Além disso, o capital exigido para o visto de gestor de negócios saltou de 5 milhões para 30 milhões de ienes (cerca de R$ 981.142). O número de residentes estrangeiros atingiu recorde de 4,1 milhões (3,4% da população), com destaque para 930 mil chineses e 70 mil americanos. O endurecimento segue relatos de inflação em imóveis e inadimplência no seguro de saúde público por parte de estrangeiros, além de críticas ao uso de empresas de fachada para obter residência.
Incertezas e o futuro demográfico
O descontentamento local alimentou o partido de direita Sanseito, pressionando o governo. Empreendedores relatam que as novas exigências tornam negócios insustentáveis, forçando o fechamento de restaurantes indianos e nepaleses. Um exemplo das dificuldades é o de uma professora transgênero dos EUA; embora viva no Japão há 10 anos e seja fluente, o alto custo e a falta de reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo dificultam sua permanência.
O advogado de imigração Kazuki Yuda previu uma queda drástica na elegibilidade para residência permanente. O governo Takaichi tenta equilibrar a insatisfação pública com a urgência de recompor a força de trabalho, já que a taxa de fertilidade caiu para 1,14 — longe dos 2,1 necessários para estabilidade. Com o iene em níveis baixos e novas taxas, o Japão perde atrativo. Sarah Nelkin, produtora de mídia residente há uma década, alerta que a situação pode levar a problemas graves no mercado japonês nos próximos 10 anos.
