O presidente da Argentina, Javier Milei, criticou severamente a Organização das Nações Unidas (ONU) nesta quarta-feira (23), afirmando perante líderes mundiais na Assembleia Geral que o organismo internacional optou por "ignorar" e "olhar para o outro lado" em relação ao litígio entre o país sul-americano e o Reino Unido pelas Ilhas Malvinas. Para o mandatário, a entidade tem falhado ao não adotar medidas mais efetivas sobre o tema.
As Ilhas Malvinas formam um arquipélago no Oceano Atlântico Sul, localizadas a aproximadamente 500 km da costa continental argentina e a cerca de 13.000 km do Reino Unido. A região é composta por duas ilhas principais — Malvina Oriental e Malvina Ocidental — e outras 778 menores, abrigando atualmente cerca de 3.660 habitantes, cuja economia se baseia principalmente em licenças de pesca, agropecuária e turismo.
A controvérsia sobre a soberania é histórica. A Argentina sustenta que herdou o território da Espanha após sua independência em 1816 e aponta que a tomada de controle pelos britânicos em 1833 configurou um ato colonial ilegal. Por sua vez, o governo do Reino Unido argumenta que administra o território de forma autônoma desde então e defende o direito dos moradores locais de decidir o próprio futuro, citando inclusive um referendo realizado em 2013 no qual 99,8% dos votantes apoiaram a permanência sob o domínio britânico — votação esta rejeitada por Buenos Aires sob a alegação de que a população foi estabelecida após a ocupação de 1833.
O conflito armado ocorreu em abril de 1982, quando a junta militar liderada por Leopoldo Galtieri ordenou a invasão do arquipélago. A então premiê britânica Margaret Thatcher enviou uma força-tarefa naval que resultou em 74 dias de combates, terminando com a rendição argentina em junho de 1982. A guerra deixou um saldo de 649 mortos do lado argentino, 255 militares britânicos e três habitantes locais, além de acelerar a queda da ditadura na Argentina e consolidar a posição política de Thatcher.
Atualmente, o Reino Unido mantém forte presença militar na área, incluindo uma base aérea em Mount Pleasant. A Argentina, por sua vez, segue reivindicando a soberania por vias diplomáticas e com o apoio de organismos internacionais e da China. Recentemente, no mês passado, o governo de Javier Milei intensificou a pressão ao anunciar planos de propor leis para sancionar empresas, acionistas, diretores e fornecedores que atuem sem autorização argentina no entorno das ilhas — com foco especial na exploração do campo de petróleo Sea Lion, considerado por Buenos Aires como uma ameaça aos seus interesses.
Em termos de posicionamento internacional, a ONU classifica as Malvinas como um território não autônomo, defende a retomada de negociações pacíficas entre os governos argentino e britânico, mas evita emitir pareceres definitivos sobre a soberania. Os Estados Unidos tradicionalmente evitam tomar partido, embora declarações recentes apontem para reavaliações estratégicas. Apesar do tom firme na cobrança à ONU, Milei descartou o uso da força militar e reiterou que a reivindicação argentina deve ser tratada exclusivamente por canais diplomáticos.
