Os leilões de saneamento, apontados inicialmente como uma das grandes promessas para o setor de infraestrutura em 2026, frustraram as expectativas do mercado ao longo do ano. O desempenho dos certames realizados na B3 registrou edições canceladas por falta de propostas e disputas que atraíram apenas um concorrente.
Especialistas consultados apontam que uma combinação de fatores reduziu o apetite dos investidores. Entre eles estão os juros elevados, a menor disponibilidade de capital, compromissos financeiros já assumidos por empresas do segmento, incertezas geradas pela reforma tributária, o número restrito de grandes operadores e falhas específicas de modelagem dos projetos.
Empresas relevantes do setor, como Aegea e BRK, registraram resultados financeiros negativos recentemente. A Aegea reduziu seu espaço para novos projetos devido a compromissos elevados de investimentos assumidos em disputas passadas. A Iguá sinalizou que vai desacelerar sua participação em leilões, enquanto a BRK adotou uma postura mais seletiva na escolha de ativos. Já a Equatorial concentrou esforços nos projetos da Sabesp e da Copasa.
A privatização da Copasa contou com apenas uma proposta, apresentada pela Equatorial. Modificações na modelagem ao longo do processo resultaram na saída da Aegea da disputa na reta final. No caso da Saneago, em Goiás, o leilão de março foi cancelado após a única proposta ser inabilitada, enquanto dois blocos não receberam ofertas. A modelagem está em reformulação e um novo leilão é esperado para o primeiro semestre de 2027. Em maio, a Acciona venceu a concessão da Cagepa, na Paraíba, sendo a única proponente em um certame adiado por 15 dias. Em junho, o leilão do Bloco 1 da Cagece, no Ceará, também teve apenas uma proposta, reunindo 23 municípios após uma redução drástica em relação ao escopo original de 127 cidades.
O leilão de concessão de saneamento de Rondônia, previsto inicialmente para a terça-feira (29), foi cancelado por falta de proponentes. Diferente das parcerias público-privadas (PPPs) da Paraíba e do Ceará, o modelo de Rondônia era de concessão comum, onde a remuneração depende da receita tarifária. Para Isadora Cohen, colunista e sócia-fundadora da ICO Consultoria, o edital permitia descontos de até 20% na tarifa antes de exigir contrapartida na outorga, o que pode ter gerado incertezas e afugentado investidores sérios devido ao risco de propostas excessivamente baixas motivadas por pressões políticas em ano eleitoral.
Guilherme Naves, sócio da Radar PPP, destacou que a corrida eleitoral em Rondônia e a perspectiva de mudança de governo criaram um cenário de risco político relevante para um investimento de cerca de R$ 2,9 bilhões. Christianne Dias, diretora-presidente da Abcon, reforçou que o relacionamento com o poder concedente em anos eleitorais adiciona incertezas e diminui a atratividade dos leilões.
A reforma tributária também figura como elemento de instabilidade. Segundo Christianne Dias, as modelagens ainda utilizam o sistema tributário atual, embora as novas regras entrem em vigor em breve, gerando dúvidas sobre a carga tributária e o reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos. A exigência de Nota Fiscal Eletrônica Nacional para o saneamento, prevista para agosto, foi adiada por falta de regulamentação, enquanto a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) tenta avançar em normas de referência para orientar reguladores infranacionais.
O advogado José Augusto de Castro, do TozziniFreire, apontou que a redução do apetite por investimentos decorre de um 2025 com volumes recordes de leilões, deixando grandes grupos com obrigações de capital elevadas. Castro também criticou o desenho de contratos que não preveem períodos de carência e exigem uma quantidade excessiva de métricas e indicadores, elevando o custo de verificação e monitoramento. Além disso, a fragmentação regulatória e a multiplicidade de órgãos locais no setor de saneamento elevam a incerteza para os investidores, segundo o especialista.
Por sua vez, o advogado Wilson Sahade ressaltou que o saneamento continua despertando interesse, inclusive internacional, mas esbarra no custo elevado do capital e na segurança jurídica, visto que os investidores precisam confiar no cumprimento dos acordos ao longo de sucessivas gestões governamentais. Diante das dificuldades nos grandes projetos, o mercado passou a direcionar o foco para concessões regionais e modelos de menor escala que exigem menos capital.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/infra/grande-promessa-do-ano-leiloes-de-saneamento-frustram-mercado/
