O presidente Lula, conhecido por seu otimismo em relação ao próprio governo, manteve no terceiro mandato a postura de exaltar sua gestão, famosa desde seus dois primeiros mandatos pela expressão "nunca antes na história deste país". Frequentemente, diante de pesquisas indicando rejeição popular superior à aprovação, o chefe do Executivo atribuía o problema à falhas na comunicação oficial, o que motivou a troca do deputado Paulo Pimenta pelo marqueteiro Sidônio Palmeira na área.
Em conjunto com correligionários do PT, o presidente também apontava uma suposta "dissonância cognitiva" por parte dos eleitores, que criticavam os rumos econômicos apesar de indicadores de alta na renda e no emprego. Mantendo-se contrariado, o mandatário argumentava que não podia se guiar por levantamentos estatísticos e que sua popularidade veria melhorias em breve.
Analistas apontam que o governante cometeu dois equívocos avaliativos centrais: julgou que seria fácil derrotar Flávio Bolsonaro, subestimando o impacto do antipetismo, e presumiu que a vitória eleitoral viria apenas do exercício institucional do cargo e de atos oficiais, dispensando uma campanha intensa.
O impacto do primeiro turno serviu como um alerta severo: Flávio Bolsonaro alcançou a primeira colocação com uma margem de 2,2 milhões de votos e 1,8 ponto percentual, configurando o menor índice registrado na etapa inicial de votação desde a redemocratização.
Nova estratégia de campanha e engajamento digital
Frente à ameaça de derrota, o titular do Palácio do Planalto mudou de postura. Nas semanas recentes, a campanha adquiriu novo fôlego impulsionada por atos de rua e por uma investida digital, lideradas por jovens e setores da sociedade civil. A movimentação evidenciou a falha inicial do presidente em limitar seu círculo político e de campanha aos aliados tradicionais, que compartilhavam de seu isolamento em relação ao cenário real.
Empurrado por parcelas da população receosas do retorno da família Bolsonaro ao poder, o chefe de Estado alterou sua abordagem:
- Substituiu frequentes aparições no palácio por atos públicos nas ruas;
- Intensificou sua presença no ambiente digital;
- Absteve-se de enfatizar realizações passadas para exaltar sua biografia pessoal;
- Passou a concordar que a população tem motivos legítimos para protestar contra a criminalidade e o custo de vida elevado;
- Admitiu na propaganda político-eleitoral que tem capacidade e dever de realizar mais entregas.
Com essa mudança tática, o petista conteu o avanço de Flávio Bolsonaro e evitou que a vitória do oposicionista fosse dada como certa. Superando o revés inicial, o candidato chega ao dia do pleito final mantendo chances de vitória, enquanto o resultado da apuração definirá se a mudança de postura ocorreu tardiamente.
