As cidades pequenas e médias do Brasil foram apontadas como o principal palco da variação de votos entre os candidatos ao Executivo federal, conforme avaliação do diretor de jornalismo do Canal Meio, Pedro Doria, durante participação no programa CNN 360º nesta terça-feira (6).
Segundo o especialista, a eleição para o primeiro turno registrou a diferença mais apertada antes de um segundo turno na história do país. Com um universo de 170 milhões de votos, apenas 2,3 milhões separaram os dois primeiros colocados. Enquanto as grandes cidades mantiveram um comportamento de voto semelhante ao de 2022, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acumulou uma queda de 3 milhões de votos em comparação ao pleito anterior. Em contrapartida, Flávio Bolsonaro (PL) registrou 4,6 milhões de votos a mais do que Jair Bolsonaro havia alcançado em 2022.
Doria destacou que os votos perdidos por Lula não migraram para candidaturas de terceira via, nem para votos brancos ou nulos, tendo sido direcionados diretamente a Flávio Bolsonaro. O analista classificou o comportamento como reflexo de um eleitor que transita fora da polarização fixa.
“Ele cogita votar em ambos e está zanzando de uma eleição para outra, procurando quem é o seu presidente, meio que sem encontrar”, declarou o especialista, apontando que esse perfil pertence majoritariamente à classe C com nível médio de escolaridade.
Comportamento da classe C e pragmatismo econômico
O diretor do Canal Meio explicou que a classe C abrange 49% da população brasileira, sendo que a parcela localizada nas periferias urbanas representa cerca de um terço do país. De acordo com a análise, esse grupo é movido pelo pragmatismo e pelo desejo de ascensão social, e não por desinformação.
“Esse eleitor só tem uma coisa na cabeça. Ele quer saber como ascender socialmente”, afirmou Doria. Ele pontua que esse público rejeita o modelo de emprego formal com carteira assinada por considerá-lo ineficiente para subir de classe, buscando alternativas como o pequeno empreendedorismo, atividade que esbarra na burocracia e na complexidade tributária nacional.
Nesse contexto, medidas do governo atual foram interpretadas negativamente por esse eleitorado. Doria citou a taxação sobre compras internacionais de baixo valor, conhecidas como “blusinhas”, argumentando que tais produtos funcionam tanto como símbolo de status quanto como meio de renda para pequenos revendedores. “Existem diversas políticas do governo Lula que foram percebidas por esse público como contra ele”, pontuou.
Apesar disso, o especialista pondera que existe uma forte dependência de serviços públicos essenciais, como saúde e educação, especialmente entre as mulheres da classe C, gerando uma ambivalência que explica a oscilação desse eleitorado.
Impacto da abstenção no segundo turno
Sobre a abstenção eleitoral, Doria apontou que o índice ficou próximo de 20%, patamar similar ao registrado em 2022, sem crescimento percentual expressivo. Contudo, ao mapear geograficamente os novos casos de abstenção — eleitores que participaram em 2022 mas faltaram no pleito atual —, o especialista identificou concentração nas periferias dos grandes centros urbanos.
O perfil demográfico dessas áreas estaria mais próximo do eleitorado tradicional de Lula. “Parece ser um eleitor que não quer votar nos Bolsonaro, não gostou do governo Lula, ficou em casa”, avaliou. Para o analista, uma eventual redução na taxa de abstenção durante o segundo turno pode se traduzir em um fator positivo para o governo.
