O cenário atual do empreendedorismo feminino no Brasil
O empreendedorismo feminino vem ganhando força no Brasil e já soma mais de 9 milhões de empresas ativas lideradas por mulheres. Por trás desse avanço, no entanto, ainda há uma característica que se perpetua: cerca de 32% das empreendedoras ainda estão na informalidade, o que as distancia de garantias financeiras, jurídicas e assistenciais. É o que revela o mais recente estudo do Instituto RME, da Rede Mulher Empreendedora.
O estudo, que ouviu 1.176 empreendedoras de todas as regiões do país, também aponta para um cenário recorrente: para muitas brasileiras, abrir o próprio negócio não começa como uma escolha, mas como uma urgência. Atualmente, 54,7% das mulheres empreendem motivadas pela necessidade. Temas correlatos ganham destaque no setor, como o Fin4She Summit que reforça a liderança feminina como força estratégica, a visão da Microsoft de que a IA não é sobre tecnologia, mas sobre transformação humana, e a meta de Luiza Trajano de ter 50% de mulheres em altos cargos no mercado até 2030.
Maternidade e a busca por equilíbrio
A maternidade é um dos principais estímulos para o início da jornada empreendedora. Cerca de 78% das empreendedoras mães tiveram filhos antes da abertura de seus negócios, criados para atender a um desejo por independência e por equilibrar a vida pessoal e profissional.
Lacunas de conhecimento e a economia do cuidado
Entre as principais dores desse grupo estão as atividades ligadas a ações de marketing e divulgação, revelando um cenário de desconhecimento de conceitos básicos para promoção de seus produtos e serviços. Na sequência, elas apontam dificuldades na gestão de custo, precificação e finanças.
A chamada “economia do cuidado” também aparece como uma barreira estrutural para as líderes femininas. De acordo com o estudo, mais de 80% das empreendedoras já precisaram interromper as atividades para se voltar ao cuidado, especialmente dos filhos, uma vez que a grande maioria — 3 em cada 4 empreendedoras — não conta com nenhuma rede de apoio pessoal.
Segundo Ana Fontes, fundadora e presidente da Rede Mulher Empreendedora e do Instituto RME, evitar a sobrecarga no empreendedorismo feminino passa por estabelecer limites claros, especialmente na definição de horários fixos de trabalho. Além disso, é fundamental precificar serviços corretamente, profissionalizar a gestão e construir uma rede de apoio para a qual seja possível delegar tarefas operacionais e domésticas.
Desafios de renda e sustentabilidade financeira
De acordo com o estudo, a renda é um fator de vulnerabilidade para as empreendedoras brasileiras. Quase metade dos negócios autônomos chefiados por mulheres (46,6%) faturam em média até dois salários mínimos, em uma média de R$ 3.242 reais. O valor é considerado insuficiente para cobrir as despesas do negócio por 38% das empreendedoras, forçando-as a buscar alternativas para complemento de renda e inviabilizando a criação de poupanças, reservas de emergência e investimentos estratégicos para a expansão do negócio.
Como solução ao problema, Ana Fontes propõe a separação das finanças pessoais das empresariais como passo fundamental para que a gestão financeira seja mais organizada e, por consequência, traga algum “respiro” às empreendedoras. “Vender mais antes de fazer essa divisão apenas aumenta o volume de dinheiro entrando e saindo sem controle, mascarando a verdadeira saúde financeira do negócio”, diz.
O ponto de partida, defende, deve ser a criação de uma conta bancária exclusiva para a empresa e a definição de um pró-labore fixo, garantindo que as despesas pessoais não “drenem o caixa da operação”, alerta a especialista.
A informalidade como barreira ao crescimento
A pesquisa indica a informalidade como uma barreira que limita o acesso a crédito e a mecanismos de proteção. Como resultado, 31,9% das empreendedoras ainda não são formalizadas e, destas, 38,9% consideram o custo como principal motivo para não terem um CNPJ. O cenário também expõe um gargalo estrutural no acesso ao crédito e financiamento bancário. O desafio é considerado o principal entrave para o desenvolvimento dos pequenos negócios femininos, segundo 35,4% das respondentes.
Caminhos futuros e transformação estratégica
Segundo Ana Fontes, a transição de um empreendedorismo de necessidade para um modelo estratégico e sustentável a longo prazo exige, a princípio, uma mudança de postura das empreendedoras. O primeiro passo fundamental é obter controle financeiro, separando a conta física da jurídica, conhecendo a margem de lucro real de cada produto ou serviço e prevendo o fluxo de caixa para interromper o ciclo de “apagar incêndios” diários.
Quando o assunto é reduzir a informalidade, Ana defende um amplo letramento com foco na reeducação das empresárias e percepção clara dos benefícios que vão além da obrigação formal. “A linguagem técnica e burocrática precisa ser traduzida em benefícios práticos: emissão de notas, crédito produtivo com juros menores, grandes parcerias e proteção social, como o auxílio-maternidade”, exemplifica. “Quando a formalização é apresentada passo a passo e respeita o tempo de maturidade financeira do negócio, ela deixa de ser vista como uma cobrança estatal e passa a ser reconhecida como uma decisão estratégica para proteger a mulher e acelerar sua empresa”.
Por fim, para transformar essa urgência para obtenção de renda e existência em prosperidade, é preciso atuar em três frentes principais: implementar políticas públicas empresariais que tratem essas mulheres como agentes econômicas; fortalecer redes e modelos comunitários de apoio para combater o isolamento; e oferecer acesso estruturado a recursos, integrando crédito, capacitação e mercado para dar sustentabilidade ao negócio.
