Pesquisadores estão cada vez mais próximos de entender o desenvolvimento do autismo no cérebro e como tratá-lo com eficácia. Por meio do uso de inteligência artificial e dados obtidos de mini-cérebros cultivados em laboratório, cientistas conseguiram mapear como mutações genéticas ligadas ao autismo remodelam o órgão e resultam no transtorno. Publicado na revista Science, esse mapa molecular serve como base para a criação de terapias mais específicas.
Avanço na descoberta de novos fármacos
O Dr. Nevan Krogan, professor da Universidade da Califórnia (UCSF) e pesquisador sênior do Instituto Gladstone, explicou que o conhecimento gerado fornece as bases moleculares do transtorno, apontando direções para novos medicamentos. Atualmente, existem mais de 250 genes associados ao transtorno do espectro autista (TEA), o que torna a busca por um tratamento similar a encontrar uma única chave para centenas de fechaduras. O novo estudo, no entanto, revela que as mutações genéticas se conectam fisicamente e reorganizam interações proteicas no cérebro, oferecendo um modelo para atingir as proteínas em vez dos genes individualmente.
O papel da inteligência artificial no mapeamento
Para construir o maior mapa já feito sobre o autismo e transtornos neuropsiquiátricos, os pesquisadores mapearam mais de 1.800 interações proteína-proteína, sendo que 87% delas nunca haviam sido observadas. O sistema de inteligência artificial AlphaFold foi utilizado para priorizar as principais mutações, que foram estudadas em organoides cerebrais. Segundo Krogan, a IA permite iluminar a biologia subjacente ao autismo de forma sem precedentes. Três programas para o desenvolvimento de novas terapias já estão em andamento com base nessas informações.
Impacto no autismo profundo e outras condições
Embora o estudo seja mais diretamente relevante para o autismo profundo — que representa cerca de 30% dos casos e exige cuidados constantes —, as descobertas podem esclarecer outras condições, como esquizofrenia, transtorno obsessivo-compulsivo e até o câncer. Fikri Birey, da Escola de Medicina da Universidade Emory, destacou que o trabalho permite identificar medicamentos que estabilizem complexos proteicos em vez de tentar corrigir cada mutação individual.
Contexto político e futuro da pesquisa nos Estados Unidos
Especialistas como Alison Singer, da Autism Science Foundation, e o Dr. Andy Shih, da Autism Speaks, elogiaram o marco científico, mas alertaram que a tradução desses dados em tratamentos clínicos levará tempo. Além disso, há preocupações sobre o futuro da pesquisa sob o segundo governo de Donald Trump. Singer expressou receio de que o novo plano estratégico do Comitê Interagências de Coordenação do Autismo (IACC) possa desviar o foco da biologia cerebral para teorias não comprovadas sobre vacinas, o que poderia retardar o progresso científico justamente em um momento de descobertas sem precedentes.
