O governo da Austrália anunciou novas regras para vistos que alteram drasticamente as condições para mochileiros que desejam prolongar sua estadia no país. A mudança, divulgada em 17 de setembro, estabelece que cumprir os 88 dias de trabalho regional exigidos por ano não será mais suficiente para garantir automaticamente a permanência por um terceiro ano.
Com as novas diretrizes, os interessados em obter o terceiro ano de visto precisarão pagar taxas para participar de um sorteio, concorrendo a apenas 5.000 vagas disponíveis — uma queda expressiva em comparação aos 31.000 vistos concedidos anteriormente. Além disso, o número de vistos de segundo ano passará de 57.000 para 45.000, representando uma redução total de 38.000 vagas somando o segundo e o terceiro anos.
A medida gerou forte preocupação entre os jovens estrangeiros. Zoe, uma mochileira francesa de 25 anos, relatou à imprensa o clima de tensão gerado pela incerteza. "Todo mundo está estressado", afirmou. Laura, de 28 anos e também da França, destacou que os viajantes realizam funções que os locais evitam. "Estamos fazendo o que os australianos não querem fazer", declarou, apontando o esforço exigido pela rotina no interior do país.
Impacto no turismo e na agricultura
O setor agrícola e operadores de turismo manifestaram apreensão com a perda de visitantes e de mão de obra essencial em regiões de baixa densidade populacional. Agricultores dependem desses trabalhadores para atividades como colheita de frutas e reparo de cercas. Max Gibson, gerente-geral do Mahony Group e vice-presidente do Youth Tourism Victoria, afirmou que as reservas antecipadas já registram queda de 25% para o restante do ano e descreveu o período recente como o pior desde a pandemia de Covid-19.
Enquanto o governo argumenta que o ajuste busca priorizar migrantes qualificados — como trabalhadores da construção civil, profissionais de saúde, especialistas em agricultura e recursos naturais e agentes de segurança pública —, críticos apontam o risco de prejuízos econômicos e escassez de trabalhadores regionais. Para suprir a demanda, o governo sugere a contratação por meio do programa Pacific Labour Mobility.
Acordo com o Reino Unido e estratégia de aprovação lenta
A turbulência no setor também é atribuída a um acordo de livre comércio firmado há dois anos entre Austrália e Reino Unido, que permitiu que mochileiros britânicos ficassem por dois ou três anos sem cumprir os 88 dias de trabalho regional, além de elevar o limite de idade de 30 para 35 anos. Segundo o ministro do Interior, Tony Burke, o número de jovens britânicos com vistos de férias-trabalho dobrou e chegou a quase 80.000. O ministro classificou o avanço como um desafio a ser discutido com homólogos britânicos.
Ademais, Matthew Heyes, fundador do Backpacker Job Board, denunciou a adoção de uma estratégia de "aprovação lenta" de vistos implementada em julho sem aviso prévio, fazendo com que solicitações fiquem semanas ou meses sem processamento. Burke afirmou que os prazos voltarão ao normal, mas representantes do setor avaliam que a medida já prejudicou viajantes e empregadores.
As alterações na política migratória ocorrem em meio à pressão de partidos rivais devido ao aumento da imigração após o fim das restrições da pandemia, somado a problemas como taxas de juros elevadas, escassez de moradias e crise no custo de vida. O pacote de mudanças também proíbe estudantes internacionais de trazer familiares e intensifica a fiscalização sobre pessoas com vistos vencidos.
