O agronegócio brasileiro enfrenta uma série de gargalos estruturais e conjunturais que demandam ações de longo prazo, superando o período de um único mandato presidencial, conforme apontam especialistas ouvidos pelo g1. Para endereçar esses desafios, a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) formulou cinco propostas de políticas públicas voltadas a áreas críticas como financiamento, infraestrutura, insumos e inserção externa.
Financiamento, endividamento e seguro rural
O custo do crédito e o endividamento dos produtores estão entre os principais entraves apontados. Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro, aponta que as taxas de juros elevadas decorrem das dívidas acumuladas e do aumento nos pedidos de recuperação judicial, o que torna os bancos mais seletivos na concessão de novos empréstimos.
Segundo Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, a inadimplência é fruto de prejuízos em safras consecutivas causados por intempéries climáticas, juros altos e custos elevados de produção. Gilio destaca que apenas 3% da produção agropecuária possui cobertura de seguro atualmente.
Recentemente, o Diário Oficial da União publicou a lei 15.526/2026, estabelecendo um novo marco regulatório para o seguro rural e contemplando demandas da Abag, como a regulamentação de um Fundo de Catástrofe e a obrigatoriedade das despesas com subvenção ao prêmio, blindando o orçamento de cortes.
Dependência de insumos e cadeias estratégicas
No setor de insumos, o principal ponto de atenção é a forte dependência de fertilizantes importados. O país importa cerca de 80% dos adubos químicos que consome, com fornecedores localizados em regiões afetadas por conflitos. Embora o Brasil possua o Plano Nacional de Fertilizantes, especialistas ressaltam que os resultados são de longo prazo e que o país continuará dependente de certo volume de importações, exigindo estratégias de diversificação de fornecedores.
A Abag também aponta um passivo regulatório que atrasa a aprovação de novas tecnologias. Para Carlos Eduardo de Freitas Vian, professor da Esalq-USP, a morosidade na liberação de defensivos químicos ocorre devido à necessidade rigorosa de testes de segurança ambiental e para a saúde.
Infraestrutura agroindustrial e conectividade
O ritmo de crescimento da produção agropecuária pressiona a infraestrutura logística, que lida com baixa capacidade de armazenamento, estradas em condições precárias e gargalos em licenças ambientais para obras. A conectividade no campo também continua limitada; dados do IBGE indicam que mais de 1,3 milhão de domicílios rurais (15% do total) não tinham acesso à internet em 2024.
Imagem e valorização da agroindústria
Especialistas apontam que o agronegócio brasileiro sofre com problemas de imagem tanto no mercado interno quanto no externo. Vian defende a implementação de um plano de comunicação institucional robusto, enquanto Serigati destaca que o alinhamento entre políticas públicas e iniciativas privadas fortalece a posição do Brasil em negociações internacionais e na abertura de novos mercados.
Competitividade e inserção internacional
O cenário global exige que os países produtores mantenham canais de diálogo constantes com os compradores. Gilio aponta que o Brasil ainda carece de acordos comerciais de longo prazo, inclusive com parceiros fundamentais como a China, o que ajudaria a garantir maior previsibilidade para os investimentos privados e a antecipar restrições sanitárias ou comerciais externas.
