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Os principais desafios do agronegócio para o próximo presidente do Brasil

Especialistas e a Abag apontam os principais gargalos do agronegócio que o próximo presidente da República precisará enfrentar, incluindo financiamento, infraestrutura, seguro rural e dependência de insumos.

Redação•09 de out. de 2026, 05:30
Os principais desafios do agronegócio para o próximo presidente do Brasil
Imagem: site

Os principais desafios do agronegócio para o próximo presidente do Brasil

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O próximo presidente da República assumirá o comando de um país com um agronegócio de forte relevância para a economia, mas que ainda esbarra em gargalos estruturais que não devem ser solucionados em apenas um mandato. Entre os principais problemas apontados por especialistas e pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) estão o endividamento, o crédito caro, a baixa cobertura do seguro rural, as perdas decorrentes de eventos climáticos extremos, as dificuldades logísticas, a dependência de insumos trazidos do exterior e os entraves para a expansão de mercados.

Para enfrentar esse cenário, a entidade apresentou cinco frentes de políticas públicas. Contudo, analistas pontuam que os desafios possuem escalas variadas e que a superação deles demanda ações contínuas tanto do poder público quanto da iniciativa privada.

Cinco frentes de políticas públicas propostas pela Abag

  • Política nacional de financiamento, seguro rural e resiliência climática: criação de um marco plurianual para ampliar recursos voltados ao setor, prevendo a instalação de um Fundo Nacional de Catástrofes Climáticas.
  • Política industrial para cadeias estratégicas: estímulo à produção nacional de insumos para assegurar a competitividade industrial e eliminação de um chamado "passivo regulatório" com o intuito de acelerar a liberação de novas tecnologias.
  • Governança, planejamento e financiamento de infraestrutura agroindustrial: modernização e harmonização dos processos de licenciamento e autorização para obras na área.
  • Comunicação, educação e valorização da agroindústria: iniciativas contínuas para ampliar o conhecimento público sobre a relevância do setor para a segurança alimentar, inovação, sustentabilidade e desenvolvimento econômico.
  • Inserção internacional e defesa da competitividade: atuação conjunta entre o governo, centros de pesquisa e o setor produtivo para combater barreiras tarifárias e não tarifárias.

Financiamento e seguro rural

Felippe Serigati, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) Agro, aponta que o custo elevado é o principal entrave do crédito e do seguro rural. Segundo ele, os juros permanecem altos devido ao endividamento acumulado e ao crescimento nos pedidos de recuperação judicial, o que torna os bancos mais seletivos.

Na mesma linha, Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, atribui a inadimplência a prejuízos seguidos causados por intempéries climáticas, juros e custos de produção elevados. Ele destaca que o problema gera um efeito em cadeia nos investimentos antes da fase produtiva, exigindo uma atuação mais forte do governo. Atualmente, apenas 3% da produção agropecuária conta com cobertura de seguro, conforme o pesquisador.

Recentemente, o Diário Oficial da União publicou a lei 15.526/2026, estabelecendo um novo marco regulatório para o seguro rural no país e contemplando demandas da Abag, como a regulamentação do Fundo de Catástrofe. A nova legislação também torna obrigatórias as despesas com a subvenção ao prêmio do seguro rural, medida elogiada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) por blindar o orçamento contra cortes.

Cadeias estratégicas e fertilizantes

No tocante à dependência externa, o Brasil importa cerca de 80% dos adubos químicos que consome, com fornecedores situados frequentemente em zonas de conflito ou rotas afetadas por guerras, como o Estreito de Ormuz. Embora o país possua o Plano Nacional de Fertilizantes, os resultados são de longo prazo e dependem da disponibilidade de matérias-primas no território nacional.

Carlos Eduardo de Freitas Vian, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalp-USP), pondera que a escassez de determinados minerais no país manterá a dependência externa em certo volume. Serigati sugere a diversificação de fornecedores enquanto o plano nacional não se consolida. No que se refere aos maquinários, Vian aponta que a principal dependência reside em componentes como chips, cuja fabricação local é considerada inviável devido à falta de demanda interna suficiente.

Infraestrutura agroindustrial

A expansão da infraestrutura em um único mandato presidencial é considerada um desafio complexo. Serigati ressalta que a produção agropecuária cresce em um ritmo muito acelerado em comparação à capacidade de escoamento e armazenamento. Gilio aponta a baixa capacidade de armazenamento e as condições precárias das estradas como fatores que elevam os custos e corroem as margens dos produtores, além de gerarem perdas de produtos.

A lentidão na emissão de licenças ambientais e a escassez de conectividade no campo — onde mais de 1,3 milhão de domicílios rurais seguiam sem internet em 2024, representando 15% do total, segundo o IBGE — também figuram entre os entraves apontados por especialistas. Vian destaca que a resolução dessas deficiências exige tempo e a criação de políticas de Estado que garantam segurança jurídica para investimentos privados via concessões, privatizações ou parcerias público-privadas.

Comunicação e valorização

O agronegócio lida com desafios de imagem tanto no território nacional quanto no exterior, conforme avalia Vian. Para o professor da Esalq, faz-se necessário um plano de comunicação para destacar os pontos fortes da agroindústria e demonstrar disposição para sanar fragilidades, contando com o engajamento tanto do governo quanto da iniciativa privada.

Gilio acrescenta que o Brasil ainda carece de estratégias de marca internacional semelhantes às de outros países, a exemplo do café colombiano. Para ele, o cumprimento de políticas públicas voltadas ao combate ao desmatamento é fundamental para colaborar com a reputação externa do setor ao longo dos anos.

Inserção internacional

No cenário global, o desafio brasileiro reside em manter canais de diálogo eficientes com os compradores e ampliar acordos comerciais de longo prazo, inclusive com a China, principal cliente do setor, segundo Gilio. O pesquisador do Insper defende maior capacidade de antecipação a restrições externas — citando como exemplo a proibição de antimicrobianos pela União Europeia — e a redução da concentração das vendas em poucos países.

Serigati e Vian concordam que a articulação entre o governo e a iniciativa privada é indispensável para defender a sólida legislação sanitária e ambiental do Brasil nas mesas de negociação internacionais e atender às exigências específicas de cada mercado desejado.

Fonte: https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2026/10/09/do-campo-ao-planalto-os-problemas-que-o-agro-quer-ver-resolvidos-pelo-proximo-presidente.ghtml

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