Quando o assunto é fertilidade, a idade da mulher costuma ocupar o centro das atenções. Mas um estudo brasileiro sugere que outro elemento pode ser igualmente decisivo: a qualidade do óvulo.
Os pesquisadores observaram que óvulos de melhor qualidade são capazes de compensar, ao menos em parte, danos acumulados nos espermatozoides de homens mais velhos, favorecendo o desenvolvimento do embrião mesmo quando a idade paterna é mais avançada.
Os resultados sugerem que essa capacidade de “reparo” varia de um óvulo para outro e pode ser estimada por um sistema de inteligência artificial, que analisa características microscópicas invisíveis ao olho humano.
“Esses resultados são importantes porque vão nos ajudar a orientar melhor os casais que estão tentando engravidar“, avalia Edson Borges, primeiro-autor do estudo e diretor científico do Fertgroup.
O estudo foi selecionado para apresentação oral no congresso da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), o evento mais importante da especialidade, que aconteceu no início de julho, em Londres. Os resultados também foram submetidos para publicação em uma revista científica.
Como o estudo foi feito
Os pesquisadores analisaram imagens de 13.613 óvulos maduros obtidos em mais de 3 mil ciclos de fertilização in vitro realizados entre 2020 e 2024.
Cada óvulo recebeu uma nota de 0 a 10 por meio de um sistema de inteligência artificial. Depois, os resultados foram comparados entre homens com até 39 anos e acima dessa idade.
Continua após a publicidadeOs melhores desfechos foram observados quando os pais tinham até 39 anos e os óvulos apresentavam alta pontuação.
Mas, mesmo entre homens mais velhos, óvulos classificados como de melhor qualidade reduziram parte do impacto negativo da idade paterna sobre o desenvolvimento embrionário.
A ideia pode parecer estranha à primeira vista, mas faz parte do processo natural da fecundação.
Quando o espermatozoide entra no óvulo, seu DNA precisa ser “reorganizado” antes que o embrião comece a se desenvolver. Nesse momento, o óvulo possui mecanismos capazes de identificar e “reparar” parte das lesões presentes no material genético masculino.
“A gente sempre soube que a maquinaria do óvulo consegue corrigir algumas coisas do espermatozoide. O que ainda não estava claro era por que alguns casais tinham bons resultados na fertilização in vitro, mesmo quando o homem era mais velho, enquanto outros, com idade semelhante, não conseguiam sequer formar embriões”, diz Borges.
Continua após a publicidadeSegundo ele, a inteligência artificial permitiu responder justamente essa pergunta. “O computador, hoje, consegue mensurar algumas características morfológicas do óvulo que só ele consegue. Então, a gente começou a ver que, dependendo da qualidade do óvulo, a idade do homem era mais ou menos importante para o desenvolvimento do embrião”, explica.
Por que a idade do pai também importa?
Ao contrário da mulher, que nasce com todos os óvulos que terá ao longo da vida, o homem produz novos espermatozoides diariamente.
Esse processo envolve milhões de divisões celulares todos os dias, aumentando a probabilidade de surgirem pequenas alterações no DNA. Essas alterações se acumulam com o envelhecimento e são favorecidas pelo chamado estresse oxidativo, quando há excesso de moléculas instáveis que danificam as células.
Por isso, a idade paterna avançada tem sido associada a um maior risco de algumas condições, como transtorno do espectro autista, esquizofrenia, cardiopatias congênitas e acondroplasia (popularmente conhecida como nanismo).
É nesse contexto que a qualidade do óvulo ganha importância. “Óvulos de excelente qualidade conseguem corrigir parte desses erros durante as primeiras divisões do embrião. Por outro lado, mesmo uma mulher jovem pode ter um óvulo de menor qualidade. Vimos que, se esse óvulo recebe uma classificação ruim pela inteligência artificial, sua capacidade de reparar esses danos é menor. Ou seja, não basta apenas ser jovem: é preciso que o óvulo também tenha boa qualidade”, explica Borges.
Continua após a publicidadeO que é um “óvulo” de boa qualidade?
Embora o envelhecimento reduza a quantidade e a qualidade dos óvulos, outros fatores também influenciam sua capacidade de dar origem a um embrião saudável.
Essa qualidade é determinada por uma série de características biológicas, mas também pode ser afetada pelo estado geral de saúde e pelos hábitos de vida.
Excesso de peso, alterações da tireoide, alimentação rica em ultraprocessados e a exposição frequente a substâncias químicas, como pesticidas, estão entre os fatores que podem comprometer o funcionamento dos óvulos.
Os mesmos fatores ambientais também afetam a fertilidade masculina. Segundo Borges, tabagismo, consumo excessivo de álcool, obesidade, estresse físico intenso, algumas medicações e a varicocele aumentam o estresse oxidativo, processo que favorece danos ao DNA dos espermatozoides.
“O que pesa mais não é a idade, mas a qualidade de vida. Tudo o que faz mal para o fígado, para o cérebro e para os rins também faz mal para o testículo”, afirma.
Continua após a publicidadeDe acordo com o especialista, muitas dessas alterações são reversíveis. Um homem obeso que perde peso, por exemplo, pode voltar a produzir espermatozoides de melhor qualidade.
“Não tem remédio nem tem nenhum procedimento técnico dentro do laboratório: a gente só consegue mudar a capacidade fértil de espermatozoide e de óvulos mudando a qualidade de vida“, diz.
O que muda na prática
Segundo o médico, a principal contribuição da pesquisa é tornar o aconselhamento dos casais mais preciso e ampliar a forma como a fertilidade é avaliada.
Se, por um lado, o estudo mostra que a qualidade do óvulo é um fator determinante para o sucesso da gravidez, por outro também evidencia que esse resultado depende da interação entre os gametas do casal, e não apenas da idade da mulher.
Até pouco tempo atrás, a idade da mulher era praticamente o único parâmetro utilizado para estimar as chances de sucesso da fertilização in vitro. Agora, a qualidade individual de cada óvulo também pode ajudar a prever o prognóstico e orientar a tomada de decisão.
Continua após a publicidade“Hoje, para cada óvulo, a gente sabe o prognóstico dele em relação a ser fecundado, a ele se tornar um embrião, a ele se tornar um bom embrião, a ele ser ‘normal’ geneticamente e a ele prover um bebê. Lógico, medicina não é matemática, a precisão é em torno de 70 a 75%. E isso muda bastante o jeito que a gente olha para esse casal”, afirma.
O pesquisador ressalta que a ferramenta não determina quem irá ou não engravidar, mas permite identificar casais com maior ou menor probabilidade de sucesso, ajudando médicos e pacientes a decidir se vale a pena insistir em novos ciclos ou considerar outras estratégias de tratamento.
Segundo Borges, o estudo é o primeiro a demonstrar que a qualidade do óvulo medida por inteligência artificial pode modificar o impacto da idade paterna sobre o desenvolvimento dos embriões.
Mas essa capacidade de reparo tem um limite. Quando os danos ao material genético do espermatozoide são muito extensos, nem mesmo um óvulo de excelente qualidade consegue corrigi-los.
Segundo o médico, hoje um dos exames mais importantes para avaliar esse risco é o teste de fragmentação do DNA espermático, que mede o grau de danos no material genético do espermatozoide. “Se essa fragmentação é muito grande, não há como o óvulo corrigir. Nesses casos, o embrião pode nem chegar a se formar ou interromper o desenvolvimento logo nas primeiras fases da gestação”, afirma.
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