Centenas de milhares de pessoas tomaram a extensão da Avenida dos Champs-Élysées, em Paris, neste sábado (26), para saudar a passagem do papa Leão. A multidão acompanhou o trajeto do pontífice a bordo de um papamóvel aberto ao longo da via arborizada de cerca de 2 km, que liga a Place de la Concorde ao Arco do Triunfo. O veículo fez diversas paradas enquanto fiéis acenavam bandeiras do Vaticano e voluntários aproximavam crianças, bebês e pessoas com deficiência para receberem a bênção.
O ponto alto da visita do papa à França foi uma missa ao ar livre que reuniu aproximadamente 800 mil pessoas. A cerimônia contou com a presença de autoridades e figuras públicas, incluindo Brigitte Macron — esposa do presidente francês —, a líder de direita Marine Le Pen, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu e o bilionário Bernard Arnault, presidente do grupo de luxo LVMH.
Durante seu sermão, o pontífice agradeceu a Deus pela oportunidade de realizar uma viagem relâmpago de quatro dias por três cidades francesas, período em que busca restaurar a reputação da Igreja após escândalos de abuso que abalaram o país. Em sua mensagem aos católicos, Leão pediu que encontrem a verdadeira felicidade na fé e não em bens materiais. “Somente Deus pode preencher o vazio dentro de nós”, afirmou.
Benoit Dedieu-Anglade, de 67 anos, comentou o discurso após o evento. “Não devemos ceder ao caminho mais fácil nem às distrações — e fiquei comovido com a forma como ele expressou isso em um francês tão claro e lúcido”, declarou. Outro participante, Pierre-Marie Estienne, de 36 anos, que compareceu com a esposa e quatro filhos, destacou o contexto de materialismo: “Há muito mal ao nosso redor, por isso precisamos de uma mensagem de esperança e amor.”
A agenda do papa na França também incluiu críticas à direção da liderança global. Na sexta-feira, em discurso na sede da Unesco em Paris, Leão alertou que a ONU e outros grupos multilaterais estão em crise. Ele também reiterou preocupações sobre a inteligência artificial, alertando líderes franceses sobre o risco de um futuro em que um “paraíso de máquinas” assuma o controle da Terra. Além disso, o pontífice tem se manifestado frequentemente pela paz, ecoando declarações feitas no Palácio do Eliseu e repercutindo falas anteriores sobre o conflito no Irã.
Cenário da Igreja Católica na França
A visita ocorre em um momento de desafios para a instituição no país. A França é uma nação secular cuja separação entre Igreja e Estado está consagrada em lei desde 1905, e enfrenta queda constante na filiação católica desde a Segunda Guerra Mundial. Dados do instituto oficial de estatísticas INSEE apontam que apenas 25% dos franceses entre 18 e 49 anos se identificam como católicos, frente a 43% uma década antes.
Por outro lado, a Conferência Episcopal Francesa registrou alta nos batismos de adultos, alcançando um recorde de 21 mil na Páscoa passada. Antes da missa, durante visita a católicos recém-batizados na Universidade Católica de Paris, Leão exortou a comunidade a manter a cautela: “Devemos reconhecer, acolher e proteger a pequena chama que o Espírito Santo acendeu na escuridão da noite, a minúscula semente que se esforça para crescer mesmo em meio aos espinhos”, declarou.
