O papa Leão XIV iniciou nesta sexta-feira, 25, uma visita de quatro dias à França, marcando a primeira viagem oficial de um pontífice ao país em quase vinte anos. Durante o voo entre Roma e Paris, o líder católico defendeu a liberdade de imprensa e comentou as restrições impostas pelo governo de Donald Trump a veículos de comunicação nos Estados Unidos. A declaração ocorreu um dia após um juiz federal americano determinar a restauração do acesso de jornalistas da CNN, MS NOW e Politico à Casa Branca, após as organizações recorrerem à Justiça contra a proibição.
A bordo da aeronave, Leão XIV expressou satisfação em receber os repórteres que o acompanham. “Estou muito feliz que aqui todos vocês sejam bem-vindos”, afirmou, acrescentando que uma cobertura jornalística ampla é essencial em todos os lugares e para todas as pessoas. O pontífice já havia se manifestado anteriormente sobre o tema e reforçou o apoio aos profissionais de imprensa que enfrentam dificuldades no exercício de suas funções.
Discurso no Palácio do Eliseu e alertas sobre a tecnologia
Horas após desembarcar em Paris, o papa colocou a inteligência artificial no centro de seu primeiro discurso oficial na cerimônia realizada no Palácio do Eliseu, ao lado do presidente Emmanuel Macron. O pontífice alertou para o risco de a humanidade perder espaço em meio ao avanço acelerado da tecnologia e defendeu o desenvolvimento de uma formação voltada ao discernimento ético, visando colocar o progresso tecnológico a serviço da dignidade humana.
“Se quisermos evitar perder nossa humanidade em meio a um ‘paraíso das máquinas’ que invade e condiciona nossa vida cotidiana, há uma necessidade urgente de educação para o discernimento ético”, declarou. O tema da inteligência artificial tem sido central na agenda do pontífice, que em maio dedicou seu primeiro grande documento papal ao assunto, defendendo mecanismos internacionais para evitar a concentração da tecnologia nas mãos de poucos. Na mesma ocasião, Emmanuel Macron também defendeu a criação de uma organização internacional para regulamentar os modelos avançados de IA.
Críticas à morte assistida e à barriga de aluguel
No mesmo discurso, Leão XIV manifestou preocupação com tendências sociais que transformam a ciência e a tecnologia em atividades orientadas pelo lucro. O pontífice citou práticas como manipulação genética, comércio de órgãos, barriga de aluguel e a possibilidade de programação da própria morte. “Estou preocupado, às vezes, com tendências da sociedade que correm o risco de transformar a ciência e a tecnologia em empreendimentos movidos pelo lucro”, afirmou.
As declarações reforçam a posição contrária da Igreja Católica à morte assistida, em um momento sensível para a França após a entrada em vigor, em agosto, de uma lei que estabelece o direito à assistência para morrer destinada a adultos com doenças graves e incuráveis. Embora o papa não tenha citado diretamente a legislação francesa, a fala reiterou a defesa da vida como princípio fundamental dos direitos humanos. No país, a barriga de aluguel é proibida, apesar de a Justiça reconhecer filiações de crianças nascidas por essa prática no exterior em circunstâncias específicas.
Agenda da viagem de quatro dias
Recebido com honras de chefe de Estado pelo presidente Emmanuel Macron e pela primeira-dama Brigitte Macron, Leão XIV chegou a Paris como um “peregrino da paz”. A viagem compreende passagens por três etapas: Paris, o santuário de Lourdes e Metz, na fronteira com a Alemanha. Entre os eventos previstos estão uma missa ao ar livre neste sábado, 26, com cerca de 600 mil inscritos, e uma vigília para cerca de 80 mil jovens no Stade de France.
A agenda oficial em Paris inclui ainda uma visita à sede da Unesco, aparição no papamóvel, passagem pela catedral de Notre-Dame e encontros com jovens. Em Lourdes, o pontífice deve se reunir com vítimas de abusos sexuais cometidos por membros da Igreja, em meio aos esforços do Vaticano para responder a denúncias na França, onde uma investigação independente de 2021 estimou que cerca de 330 mil menores sofreram abusos em instituições religiosas entre 1950 e 2020. A última etapa da viagem, em Metz, focará na paz e no futuro da Europa, abordando temas como conflitos internacionais, migração e o panorama religioso e político do continente.
Fonte: https://veja.abril.com.br/mundo/na-franca-papa-leao-xiv-cutuca-trump-e-alerta-contra-riscos-da-ia/
