O Brasil enfrenta um cenário complexo de transição nutricional que combina a persistência da fome e da desnutrição com o avanço acelerado da obesidade infantil. O país retornou ao “Mapa da Fome” da FAO em 2019, após ter saído da lista em 2014, impulsionado por recessão, desemprego, desigualdade social e pelos impactos da crise sanitária da covid-19.
Dados divulgados pelo IBGE em outubro de 2025, com base na PNAD Contínua de 2024, indicam uma melhora na segurança alimentar. A proporção de domicílios com algum grau de insegurança alimentar caiu de 27,6% em 2023 para 24,2% em 2024, representando 18,9 milhões de residências. Os lares em segurança alimentar plena subiram de 72,4% para 75,8%. A insegurança leve recuou de 18,2% para 16,4%, a moderada de 5,3% para 4,5% e a grave de 4,1% para 3,2%, atingindo 2,5 milhões de famílias.
O levantamento aponta desigualdades regionais e sociais. As maiores taxas de insegurança alimentar estão no Norte (37,7%) e no Nordeste (34,8%), com índices graves de 6,3% e 4,8% — quase quatro vezes o registrado no Sul (1,7%). Áreas rurais (31,3%), lares chefiados por mulheres (59,9%), por responsáveis pretos ou pardos e residências de baixíssima renda também concentram maior vulnerabilidade, sendo que dois em cada três lares com renda per capita de até um salário-mínimo viviam em insegurança alimentar.
Na pediatria, a insegurança alimentar grave afeta mais as crianças: em 2024, atingia 3,3% da faixa de 0 a 4 anos e 3,8% de 5 a 17 anos, em comparação com 2,3% dos idosos.
Indicadores do paradoxo nutricional
A avaliação nutricional infantil envolve quatro indicadores principais:
- Desnutrição (baixo peso e emaciação): déficit de peso em relação à altura ou idade, sensível a crises agudas.
- Baixa estatura nutricional (stunting): desnutrição crônica acumulada desde a gestação ou nos primeiros dois anos de vida, com dano de difícil reversão.
- Fome oculta: ingestão calórica suficiente ou excessiva, mas com carência de micronutrientes essenciais como ferro, zinco e vitamina D, decorrente da baixa qualidade da dieta e introdução precoce de alimentos inadequados.
- Sobrepeso e obesidade: em 2024, estimava-se que 34% das crianças e adolescentes brasileiros (15,58 milhões) apresentavam excesso de peso, dos quais 3,1 milhões evoluíram para obesidade.
Segundo o pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg, coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda) do Instituto Pensi e Sabará Hospital Infantil, a dupla ou tripla carga de má nutrição exige atuação simultânea sobre renda, educação, pré-natal, aleitamento e qualidade da alimentação complementar. O especialista aponta que a prevenção exige ações multissetoriais, como regulação de marketing infantil, rotulagem nutricional e tributação de ultraprocessados.
O tema será debatido no 8º Congresso Internacional Sabará-Pensi de Saúde Infantil, realizado entre 1 e 3 de outubro em São Paulo, que contará com um dia dedicado à avaliação da insegurança alimentar em consultórios pediátricos.
