Os principais partidos da polarização política brasileira, PL e PT, direcionaram recursos expressivos do fundo eleitoral para ampliar suas bancadas no Senado Federal, considerando a Casa como o centro da disputa de poder a partir de 2027. A renovação de dois terços das cadeiras — 54 de um total de 81 — mobilizou o discurso de lideranças de ambos os lados diante da deterioração do quadro institucional.
Em declaração dada no dia 23, no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizou a gravidade do pleito ao apoiar o aliado Pedro Paulo (PSD): “Não temos mais idade para brincar. O que está em jogo é muito sério. Se não fizermos maioria no Senado, a gente corre o risco de esse país entrar numa crise sem precedentes”. Do lado oposto, Flávio Bolsonaro (PL) ressaltou a importância da união da direita ao agradecer a Ricardo Salles (Novo) por retirar sua candidatura em São Paulo em favor de Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL), afirmando: “É importante eleger dois senadores de direita, e Salles está dando esse passo para o lado. Eu espero que esse gesto dele seja replicado em outros locais”.
Levantamento da revista VEJA com base nas prestações de contas enviadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta que o PL lidera amplamente os investimentos com recursos do fundo eleitoral para o Senado, somando mais de 100 milhões de reais — o equivalente a quase um quarto dos 465 milhões de reais distribuídos entre todas as legendas. O PT ocupa a segunda posição, com 57,2 milhões de reais despendidos. Juntas, as duas siglas concentram 14 das 20 candidaturas mais caras da atual campanha, sendo dez delas apenas do PL. O partido de Flávio Bolsonaro lançou 33 candidatos, com média de 3,2 milhões de reais por campanha, enquanto a legenda de Lula registrou 19 competidores, com investimento médio de 2,9 milhões de reais cada.
Entre os nomes apoiados pelas siglas estão figuras de destaque nacional. O PL aposta em nomes como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro no Distrito Federal e o ex-vereador Carlos Bolsonaro. Já o PT conta com quadros como a ex-presidente do partido Gleisi Hoffmann no Paraná (que recebeu 4 milhões de reais da legenda), o ex-ministro Rui Costa na Bahia e a ex-governadora Benedita da Silva no Rio de Janeiro. A disputa também envolve aliados estratégicos em outras legendas, a exemplo de Guilherme Derrite (PP) e Marcel van Hattem (Novo) pela direita, e o senador Cid Gomes (PSB) e Helder Barbalho (MDB) pela esquerda.
Motivações e prerrogativas do Senado
O interesse acentuado pela Casa Alta decorre de suas prerrogativas institucionais, especialmente em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF). O bloco bolsonarista — que detém atualmente 15 cadeiras, mas busca maioria — utiliza o pedido de impeachment de ministros como mote de campanha. A pauta ganhou força após suspeitas envolvendo relações de membros da Corte, em especial Alexandre de Moraes, com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master. A direita também incluiu na agenda a busca por anistia total aos condenados pelas manifestações de final de 2022 e início de 2023.
De acordo com o cientista político Eduardo Grin, da FGV-SP, “o plano do PL é ter senadores para emparedar o STF e aprovar com folga a anistia, enquanto o PT, sem condições de controlar a Câmara, busca no Senado um anteparo mínimo contra as agendas da direita”.
Além disso, o Senado detém a competência de sabatinar e aprovar indicações presidenciais para o STF. Com a vaga de Luís Roberto Barroso em aberto e três ministros (Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes) próximos à aposentadoria compulsória por idade, o próximo presidente poderá indicar quatro novos nomes à Corte. Contudo, o sucesso depende do aval do Senado, cenário evidenciado em abril com a rejeição histórica de Jorge Messias, primeiro nome vetado ao cargo em mais de 130 anos.
Impacto na sucessão da Mesa Diretora
Encerrada a votação, o resultado influenciará diretamente a disputa pela presidência do Senado, cargo que define a pauta de votações, pedidos de impeachment e CPIs, além de convocar sessões do Congresso para analisar vetos presidenciais. O atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), enfrenta desgaste devido a suspeitas de relações impróprias com Daniel Vorcaro reveladas por VEJA. Caso a direita bolsonarista conquiste ampla margem, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, desponta como forte candidato ao posto, cuja proximidade de Alcolumbre com o governo Lula e ministros do STF é contestada pela oposição.
