Em 16 de outubro do ano passado, o governo brasileiro recebeu uma proposta de negociação comercial por parte dos Estados Unidos que incluía exigências como a garantia de participação de "dissidentes políticos" nas eleições de 2026, a compra obrigatória de aeronaves da Boeing por companhias aéreas brasileiras e direito de preferência na aquisição de jazidas de minerais críticos.
O documento foi entregue ao ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, em Washington, por meio de auxiliares do Itamaraty que receberam o texto da área técnica do governo de Donald Trump. Na ocasião, Vieira preparava-se para um encontro presencial com o secretário de Estado, Marco Rubio, e com o chefe do USTR (Escritório do Representante Comercial da Casa Branca), Jamieson Greer. A reunião funcionava como um "quebra-gelo" entre autoridades dos dois países após um desentendimento entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na Assembleia Geral da ONU. O conteúdo foi revelado pelo jornal "Estado de S. Paulo" e confirmado pela CNN.
Segundo relatos, Vieira informou o Palácio do Planalto sobre as demandas e rejeitou os termos de imediato. Na reunião posterior com Rubio e Greer, os pontos não foram abordados e nem retornaram à pauta nas negociações seguintes. Diplomatas do Itamaraty classificaram reservadamente as exigências iniciais como "bullying diplomático" e afirmaram que a proposta "nasceu morta".
Entre os tópicos rechaçados pelo governo brasileiro, a menção a "dissidentes políticos" foi considerada inapropriada por não possuir validade jurídica em uma democracia. Já a imposição de compra de aviões da Boeing foi avaliada como uma ingerência indevida em setores privados, uma vez que as companhias aéreas brasileiras possuem autonomia na escolha de fornecedores de jatos.
O pacote de pedidos apresentado pelos Estados Unidos também envolvia:
- Adesão do Brasil ao "princípio da neutralidade competitiva" acerca da atuação do Banco Central na regulação de meios de pagamento eletrônico, como o Pix.
- Eliminação de tarifas de importação para etanol, produtos químicos, máquinas, equipamentos, veículos automotivos e bens de alta tecnologia dos EUA.
- Notificação prévia sobre transferências de controle de ativos de minerais críticos, além de assegurar direito de preferência a empresas americanas antes de negociações com outros países.
A avaliação de negociadores do Brasil é que a rejeição da proposta por Mauro Vieira não trouxe prejuízos às conversas subsequentes, apontando como indício os recuos do governo Trump em meses seguintes sobre tarifas e sanções baseadas na Lei Magnitsky. Diplomatas também demonstraram preocupação com o vazamento do material, visto que o governo americano cobra confidencialidade e adota postura dura com países que divulgam tratativas extraoficialmente.
A CNN Brasil entrou em contato com o Departamento de Estado americano e com o Itamaraty, mas nenhum dos órgãos se pronunciou sobre o caso até o momento.
