A França foi palco de uma onda de protestos e paralisações nesta terça-feira, 29, mobilizando servidores públicos e estudantes contra cortes de gastos públicos. A mobilização nacional ocorreu a dois dias da apresentação do projeto de orçamento do governo, que prevê um ajuste fiscal de 54 bilhões de euros, equivalente a R$ 318,73 bilhões na cotação atual, em meio a discussões sobre as contas públicas do país.
De acordo com o Ministério do Interior, cerca de 200 mil pessoas participaram de mais de 170 atos por todo o território nacional, sendo aproximadamente 30 mil somente em Paris. Por outro lado, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), uma das principais centrais sindicais francesas, estimou o público total em mais de 300 mil manifestantes, com 70 mil na capital. Por volta do meio-dia, a adesão à greve atingiu quase 10% dos funcionários da administração pública e 13,71% entre os professores, segundo dados do governo.
Os servidores públicos reivindicam reajustes salariais, novas contratações e melhores condições de trabalho diante da perda de poder de compra provocada pela inflação. A insatisfação da categoria também decorre do congelamento do índice utilizado para o cálculo salarial. Desde 2017, o indicador foi reajustado apenas em 2022, com 3,5%, e em 2023, com 1,5%. No mesmo período, a projeção do instituto oficial de estatísticas Insee aponta que a inflação acumulada deverá alcançar 24,17% até o fim de 2026.
Sophie Binet, líder da CGT, classificou o congelamento do índice como uma redução salarial real para milhões de trabalhadores. Já o governo, por meio do primeiro-ministro Sébastien Lecornu, defende o plano de economia de 54 bilhões de euros anunciado neste mês para equilibrar as contas públicas e reduzir os elevados níveis da dívida francesa. Os sindicatos, contudo, sustentam que o esforço fiscal não deve recair sobre os salários e os serviços públicos.
A paralisação também envolveu estudantes do ensino médio, que realizam protestos e bloqueios desde a semana passada. Entre as reivindicações estão a redução do número de alunos por turma, a contratação de professores, alterações na organização dos horários e medidas contra o calor excessivo nas salas de aula. Em algumas localidades, as manifestações registraram confrontos, com grupos de adolescentes incendiando contêineres de lixo e arremessando objetos contra policiais, que responderam com o uso de cassetetes e gás lacrimogêneo.
O Ministério do Interior informou que 440 pessoas foram detidas durante os atos. Dez funcionários públicos e estudantes ficaram feridos. O ministro da Educação, Édouard Geffray, condenou a violência em uma publicação na rede X e afirmou que medidas judiciais serão tomadas contra os responsáveis pelos episódios, destacando que a ampliação dos bloqueios naquele cenário colocava em risco a segurança de estudantes e servidores.
O movimento ocorre a poucos meses da eleição presidencial francesa, marcada para abril e maio de 2027. O pleito encerrará o período de quase dez anos de governo do presidente Emmanuel Macron, que está impedido de concorrer a um terceiro mandato consecutivo.
