Uma onda de protestos nacionais tomou conta da França, impulsionada por bloqueios em colégios que começaram no Colégio Saint-Exupéry, na periferia de Paris. De acordo com o governo francês, mais de 260 mil pessoas participaram das manifestações ao longo de uma terça-feira, marcando uma das maiores mobilizações desde o movimento dos "coletes amarelos" em 2018, que protestou contra a gestão de Emmanuel Macron.
Na capital francesa, 56 mil manifestantes reuniram-se nas proximidades da Place de la Nation, enquanto estudantes bloquearam o acesso a instituições de ensino em várias regiões da cidade. O movimento também registrou grandes aglomerações em Estrasburgo, Marselha, Lyon, Nantes e Caen. Utilizando as redes sociais com a legenda "P.O.V: o bloqueio no seu colégio não foi um fracasso", os alunos compartilharam registros dos atos.
O movimento é liderado por estudantes e conta com a participação de professores, pais e membros de sindicatos. Os manifestantes exigem melhores condições de estudo, o que inclui a melhoria de prédios escolares mal reformados, ampliação do corpo docente e soluções para a superlotação das salas de aula. A inflação e o aumento do custo de vida também alimentam a insatisfação. Representando a categoria, o professor e sindicalista Erwan le Clech afirmou que há uma escassez evidente de recursos e superlotação.
As manifestações, inicialmente pacíficas, registraram confrontos e forte repressão policial com o uso de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Manifestantes responderam ateando fogo em lixeiras e arremessando objetos contra as forças de segurança. O saldo foi de 488 pessoas detidas, somando-se a 6.059 prisões desde 28 de setembro. Denúncias de uso excessivo de força policial repercutiram nas redes sociais, incluindo casos de um estudante com a mão gravemente queimada por uma granada de gás lacrimogêneo e de um adolescente de 14 anos que sofreu fraturas nos dentes e mandíbula quebrada após ser atingido de perto por um lançador de gás, ficando sem falar e alimentando-se apenas por líquidos, conforme relatado por sua família.
Diante da crise, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu condenou a violência durante sessão na Assembleia Nacional, declarando que a "ultraviolência bateu à porta desses colégios" e não pode ter tolerância em uma democracia. Por sua vez, o presidente convocou ministros para formular respostas às reivindicações, com o Executivo comprometendo-se a melhorar infraestrutura, acompanhamento de alunos e organização escolar.
Entretanto, o cenário fiscal é restrito: o déficit público ultrapassa 5% do PIB e a dívida nacional alcança 3,6 trilhões de euros. Para o professor da FAAP e da FGV Vinícius Rodrigues Vieira, a conta chegou para o governo centrista de Macron, em um contexto de descontentamento generalizado com o estado de bem-estar social. A situação agravou-se com o envio de um projeto de orçamento à Assembleia Nacional prevendo cortes de gastos, congelamento de salários e aumento de impostos.
Além de pautas educacionais e econômicas, o movimento também se posiciona politicamente. A estudante Jana declarou que os atos buscam demonstrar solidariedade aos professores e combater a ascensão da extrema direita nas eleições presidenciais previstas para abril de 2027. O partido de extrema esquerda França Insubmissa integra os protestos, buscando fortalecer seu líder, Jean-Luc Mélenchon, que aparece em terceiro lugar em levantamento IFOP/LCI, atrás de Édouard Philippe e de Marine Le Pen, do partido Reunião Nacional.
