A eleição de 2026 modificou o cenário político do Piauí e encerrou uma trajetória de dezesseis anos de Ciro Nogueira (PP) no Senado, desde o início do primeiro mandato até o término do período atual. Na disputa pelas duas vagas em aberto, o ex-ministro da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro alcançou a terceira posição, com menos de 25% dos votos.
Os vencedores do pleito foram Marcelo Castro (MDB), que garantiu a reeleição com 36% dos votos, e Júlio César (PSD), que conquistou a preferência de 27% do eleitorado estadual. Com 78 anos e acumulando sete mandatos na Câmara dos Deputados, Júlio César adotou o apelido de “Julim do Lula” em sua campanha, associando sua imagem diretamente ao presidente e ao governador reeleito Rafael Fonteles, também filiado ao PT.
Campanha e alianças políticas no Piauí
A estratégia de Júlio César destacou sua experiência legislativa e a defesa do municipalismo, bandeira voltada para o envio de mais verbas diretamente às prefeituras para que decidam onde aplicar os recursos de acordo com as realidades locais. A aproximação com o petismo no estado já havia se manifestado nas eleições de 2022, quando sua esposa, Jussara Lima, assumiu a primeira suplência de Wellington Dias, eleito para o Senado e posteriormente licenciado para assumir o Ministério do Desenvolvimento Social no governo Lula. Desde então, Jussara exerceu o mandato parlamentar de forma quase ininterrupta.
Nos bastidores, Ciro Nogueira tentou articular um acordo de não agressão com Lula devido à alta popularidade do presidente no estado. No entanto, durante visita ao Piauí, o petista declarou publicamente apoio aos candidatos Marcelo Castro e Júlio César.
Desgaste político e investigações
Além do desempenho do candidato do PSD, pesou contra Ciro Nogueira o desgaste decorrente de investigações sobre um possível envolvimento com o escândalo do Master, apontado como a maior fraude bancária do país. O presidente do Progressistas enfrentou dificuldades para afastar suspeitas de vínculos comerciais camuflados com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro em troca de atuação parlamentar em favor do banco no Congresso.
A repercussão de fotos e vídeos de festas no exterior com o empresário também afetou a imagem do ex-ministro. Investigações apontam que Vorcaro teria viabilizado repasses de pelo menos 6 milhões de reais entre 2024 e 2025, com valores mensais estimados em 500.000 reais. Ciro Nogueira reconheceu amizade com o ex-banqueiro e com grandes empresários brasileiros, mas refuta a prática de crimes ou irregularidades.
Entre os episódios de maior repercussão esteve a chamada “emenda Master”, proposta apresentada por Nogueira para elevar de 250.000 reais para 1 milhão de reais por CPF a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para investimentos em títulos financeiros. O mecanismo já desembolsou ao menos 40 bilhões de reais para ressarcir consumidores após a liquidação do banco e de empresas de seu conglomerado.
A trajetória e a marca de Júlio César
Ao longo de seus sete mandatos na Câmara, Júlio César concentrou sua atuação nas áreas de municipalismo, desenvolvimento regional, agricultura e distribuição de recursos públicos por meio de emendas parlamentares. Seu discurso centrava-se na necessidade de enviar ao Senado um representante familiarizado com as demandas municipais e com a capacidade de converter articulação política em recursos.
O slogan “Julim do Lula” consolidou-se como a principal marca da campanha, ganhando espaço nas redes sociais, versões populares e até mesmo o público infantil com o bordão “Tchan, tchan, tchan… confirma, é o Julim do Lula”. A equipe de comunicação utilizou o recurso para imprimir leveza e bom humor à disputa, unindo a presença nas ruas com ações digitais.
