O governo brasileiro projeta avançar ainda neste ano na retomada das exportações de pescado para a União Europeia, mercado que permanece fechado para o produto nacional desde 2018. De acordo com informações do Ministério da Pesca e Aquicultura, a reabertura do bloco poderá gerar um incremento de aproximadamente 20% no valor total exportado pelo país, que atualmente alcança US$ 472 milhões.
Atualmente, o processo de negociação encontra-se na etapa de avaliação das respostas enviadas pelo Brasil em relação às recomendações estabelecidas pela União Europeia. O ministro da Pesca e Aquicultura, Édipo Araújo, informou que o relatório preliminar foi encaminhado no mês passado e que o governo cumpriu o prazo para a entrega das respostas, finalizado em 9 de outubro.
“Trabalhamos com muito comprometimento, com muito diálogo e com muito tecnicismo. A proteína do Brasil é de tanta qualidade que não pode estar fora de um dos mercados mais estratégicos do mundo, que é o mercado da União Europeia”, declarou o ministro em entrevista à CNN durante o evento Seafood Show, realizado em São Paulo.
Estratégia de diversificação e novos mercados
Enquanto busca reatar o acesso comercial ao território europeu, a gestão federal atua para ampliar a presença do pescado brasileiro em outras praças internacionais. Os Estados Unidos representam atualmente cerca de 50% das exportações do setor. A China figura em segundo lugar, com compras da ordem de US$ 51 milhões, seguida pela Argentina, cuicas importações giram em torno de US$ 16 milhões.
A diretriz oficial visa diminuir a concentração das vendas externas e elevar o leque de países compradores. O ministério aponta que já foram abertos mais de 20 novos mercados para o pescado nacional. Entre as conquistas recentes estão os Emirados Árabes Unidos, anunciados na semana passada em ação que contou com a participação do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula. A inserção marcou o mercado de número 700 obtido pelo Brasil para produtos do setor agropecuário.
Para o governo, o retorno ao mercado europeu carrega forte relevância estratégica devido ao potencial de agregar valor aos itens comercializados. “Quando falamos de exportação, falamos principalmente em valor agregado”, pontuou o representante ministerial.
Desafios e incentivos para o consumo interno
O fortalecimento do mercado interno permanece como um dos principais desafios da pasta. Embora o país disponha de cerca de 8.500 quilômetros de costa, aproximadamente 12% das reservas mundiais de água doce e uma rica biodiversidade aquática, o consumo per capita nacional de pescado ainda é considerado baixo, situando-se entre 10 e 12 quilos por habitante ao ano.
Há disparidades expressivas entre as regiões brasileiras:
- Região Norte: registra os maiores índices de consumo.
- Regiões Centro-Sul e Sul: apresentam consumo variando entre 2 e 5 quilos por habitante ao ano.
Para reverter esse quadro, o ministério implementa medidas voltadas a facilitar o acesso ao alimento e fomentar sua presença na dieta cotidiana. Entre as frentes estão parcerias com o Ministério da Educação (MEC) para introduzir o pescado na merenda escolar e a inclusão do produto na cesta básica, visando atingir crianças e jovens na formação de hábitos alimentares.
“A gente precisa ampliar e universalizar o consumo de pescado no Brasil”, declarou Araújo.
Avanço da tilápia e sustentabilidade
A tilápia tem se destacado como símbolo da popularização do pescado no país. A espécie exótica de origem africana conquistou espaço devido à facilidade de produção em escala, ampla disponibilidade e boa aceitação comercial. O estado do Paraná destaca-se como um dos maiores produtores nacionais da espécie, mesmo contando com uma faixa litorânea reduzida, o que comprova a força da aquicultura em áreas distantes do mar.
O ministério também enfatiza que o setor possui vantagens competitivas ligadas à sustentabilidade, oferecendo menor impacto ambiental em comparação a outras cadeias de produção de alimentos diante dos cenários de mudanças climáticas.
“A combinação entre expansão da aquicultura, diversificação das exportações e aumento do consumo interno é vista como um caminho para ampliar a participação do pescado na economia brasileira”, concluiu o ministro.
