A medicina nuclear utiliza radiação para realizar diagnósticos, tratamentos e auxiliar em cirurgias, permitindo observar o funcionamento do organismo de forma fisiológica, metabólica e molecular antes de alterações estruturais aparecerem. Na oncologia, destaca-se a teranóstica, conceito que une diagnóstico e tratamento ao identificar um alvo nas células tumorais para direcionar a terapia.
Esses procedimentos dependem da cadeia de radiofármacos (RFs), substâncias que contêm radionuclídeos e cuja radioatividade diminui continuamente conforme a meia-vida física. O tecnécio-99m, por exemplo, é o radionuclídeo mais empregado em diagnósticos e tem meia-vida de cerca de 6 horas, sendo obtido a partir de geradores de molibdênio-99, cuja meia-vida é de aproximadamente 66 horas. Como o Brasil é parcialmente dependente do mercado internacional para esses materiais, atrasos logísticos podem comprometer o atendimento, tornando a produção nacional uma questão de segurança e planejamento em saúde.
A importância dos radionuclídeos cresceu com as terapias direcionadas, como o lutécio-177, utilizado contra tumores neuroendócrinos e câncer de próstata avançado. Estratégias que empregam o antígeno de membrana específico da próstata (PSMA) ajudam a orientar o lutécio-177 até as células doentes. O estudo de fase III VISION comprovou a eficácia do tratamento com lutécio-177-PSMA-617 em pacientes com câncer de próstata metastático resistente à castração, e a Food and Drug Administration (FDA) ampliou sua indicação para uma fase mais precoce da doença.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano no Brasil no triênio de 2026 a 2028, evidenciando a alta demanda potencial por exames de PET/CT com PSMA e terapias com lutécio-177.
Para enfrentar essa dependência externa e atender à demanda, está em desenvolvimento o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), projeto sob a responsabilidade da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) situado em Iperó, no interior de São Paulo. A infraestrutura visa à produção de radionuclídeos, pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico e capacitação profissional.
Segundo a Cnen, o RMB foi projetado para fabricar radionuclídeos para mais de 30 tipos de radiofármacos, incluindo molibdênio-99, iodo-131 e lutécio-177. A instituição estima que a iniciativa poderá expandir a oferta de procedimentos de medicina nuclear e gerar uma economia superior a US$ 15 milhões por ano em importações.
O reator também serve como plataforma para inovação diante do envelhecimento populacional e do aumento de doenças como câncer, condições cardiovasculares e enfermidades neurodegenerativas, fortalecendo a autonomia tecnológica e a segurança no atendimento aos pacientes.
