NewsHub
Política

Risco de derrota de Lula gera tensão no PT e incertezas sobre sucessão

Possibilidade de derrota de Lula eleva o clima de tensão no PT e reacende debates internos sobre a sucessão e os rumos futuros do partido.

Redação•10 de out. de 2026, 08:57
Risco de derrota de Lula gera tensão no PT e incertezas sobre sucessão
Imagem: site

Risco de derrota de Lula gera tensão no PT e incertezas sobre sucessão

Ouça esta matéria em voz alta

A possibilidade de uma derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem intensificado as tensões internas no Partido dos Trabalhadores (PT) e ampliado os questionamentos a respeito dos rumos e da liderança da legenda após o fim da trajetória de seu principal nome histórico. O cenário de incerteza em torno da sucessão é alimentado pela perspectiva de um revés eleitoral diante de Flávio Bolsonaro (PL).

Em setembro de 2025, o próprio Lula declarou publicamente que somente não disputaria a sua sétima eleição presidencial caso surgisse algum problema de saúde ou um candidato considerado melhor. Com a saúde preservada e a ausência de um substituto imediato dentro da sigla, o debate sobre o futuro pós-Lula foi historicamente evitado ou adiado, amparado na expectativa de que o atual mandatário pudesse conduzir a transição de forma tranquila aos 81 anos.

As recentes urnas trouxeram resultados desfavoráveis para nomes frequentemente apontados como potenciais herdeiros políticos da esquerda. Fernando Haddad acumulou a sua quarta derrota eleitoral consecutiva ao ser superado por Tarcísio de Freitas ainda no primeiro turno em São Paulo. Gleisi Hoffmann terminou a disputa ao Senado pelo Paraná na quarta posição, obtendo 13% dos votos, enquanto Manuela d’Ávila (PSOL) ficou em terceiro lugar no Rio Grande do Sul, com 17%, ambas batidas por uma coalizão de direita. Guilherme Boulos não concorreu, mas o PSOL figurou entre as legendas que não atingiram a cláusula de barreira, e João Campos (PSB) foi derrotado no primeiro turno na corrida ao governo de Pernambuco por Raquel Lyra (PSD).

Em contrapartida, o desempenho de lideranças do Nordeste evitou um cenário ainda mais adverso para o PT. O governador do Ceará, Camilo Santana, conduziu a reeleição de Elmano de Freitas em um pleito acirrado contra Ciro Gomes (PSDB). Na Bahia, Rui Costa garantiu uma vaga no Senado e contribuiu para a recondução de Jerônimo Rodrigues, assegurando o sexto mandato consecutivo do partido no estado em disputa contra ACM Neto (União Brasil). No Piauí, Rafael Fonteles foi reeleito com 71% dos votos. Nos três estados, as chapas lideradas por esses governadores também elegeram dois senadores.

Essas figuras foram deslocadas a Brasília para reforçar a articulação da campanha de reeleição de Lula. Camilo Santana integrou a coordenação ao lado de Edinho Silva, presidente do PT, enquanto Rui Costa e Jaques Wagner somaram esforços na reorganização estratégica. Rafael Fonteles esteve na capital federal na segunda-feira 5, permanecendo por três dias para alinhar diretrizes de comunicação digital com o apoio de parlamentares progressistas.

A condução interna, contudo, tem sido alvo de contestações. Durante uma reunião da legenda realizada em Brasília na terça-feira, a ex-senadora e ex-ministra Kátia Abreu, coordenadora da campanha no Tocantins, criticou a composição da coordenação nacional ao rotular o grupo como formado por “paulistas sem voto”. Ela defendeu maior inclusão de lideranças regionais, sobretudo de fora do eixo de São Paulo. Em entrevista à VEJA, Kátia Abreu pontuou que nenhum sucessor de Lula despontou de forma clara e ponderou que antecipar esse debate pode enfraquecer a gestão vigente.

Analistas apontam que um revés eleitoral de Lula pode acirrar disputas geográficas internas, contrapondo o predomínio financeiro e burocrático do Sudeste à força eleitoral concentrada no Nordeste. Para o cientista político Eduardo Grin, da FGV-SP, a derrota pode obrigar o partido a promover uma renovação substancial na Executiva Nacional. Em caso de vitória, a tendência avaliada é de manutenção da estrutura partidária e de uma indicação sucessória liderada pelo próprio presidente, a exemplo do ocorrido com Dilma Rousseff em 2010.

Do lado paulista, o deputado federal reeleito Nilto Tatto defende que Fernando Haddad continua sendo um quadro relevante para o processo de sucessão, independentemente do histórico recente de derrotas. No entanto, Tatto e Gutierres Barbosa, da coordenação nacional do núcleo evangélico do PT, concordam que o maior desafio da legenda reside na capacidade de dialogar com novas parcelas do eleitorado — como jovens, evangélicos, trabalhadores autônomos, prestadores de serviços por aplicativo e pequenos empreendedores —, distantes do tradicional universo sindical que originou o partido.

Além do desgaste sucessório, o cenário pós-Lula traz o risco de perda da hegemonia da esquerda no país. A atual eleição contou com a inédita união de partidos como PDT, PSB, PSOL e Rede em torno de Lula para fazer frente à extrema direita. Para Paulo Lamac, presidente da Rede, uma eventual vitória presidencial pode intensificar as discussões internas no campo progressista, abrindo margem para federações construírem chapas próprias. Já a cientista política Priscila Lapa, da UFPE, avalia que o momento exigirá uma reorganização da esquerda baseada em agendas capazes de dialogar para além da bolha petista.

Apesar dos desafios e da possibilidade de nomes externos ao bloco tradicional — como o vice Geraldo Alckmin — integrarem futuras discussões, o PT mantém sua posição de maior legenda de esquerda. O partido elegeu 70 deputados federais, superando o PSB, segundo colocado com 15 parlamentares. Para o deputado reeleito Zeca Dirceu (PT-PR), a força numérica da legenda garante candidaturas próprias nos pleitos de 2030 e 2034, embora a tensão e as discussões internas nos bastidores devam ganhar tração com o desfecho da eleição presidencial.

Fonte: https://veja.abril.com.br/politica/risco-de-derrota-de-lula-eleva-a-tensao-no-pt/

Compartilhar