A rota marítima usada por refugiados rohingya na Baía de Bengala e no Mar de Andaman tem registrado um aumento drástico na movimentação nos últimos anos, impulsionada pela guerra civil em Mianmar e pela piora nas condições nos campos de refugiados de Cox's Bazar, em Bangladesh. Conforme dados da ONU, cerca de uma em cada sete pessoas que tentam realizar a travessia não chega ao destino, tornando o percurso a rota com a maior taxa de mortalidade do mundo para migrantes e refugiados.
No ano passado, quase 900 refugiados rohingya foram dados como desaparecidos ou mortos no mar, de um total de aproximadamente 6.500 que tentaram a travessia. No primeiro semestre deste ano, 820 pessoas foram dadas como mortas ou desaparecidas, quase o dobro do registrado no mesmo período do ano anterior. Cerca de 5.700 pessoas tentaram a jornada até o final de junho. Os números, no entanto, tratam-se de estimativas, visto que muitas viagens ocorrem sem que haja registros e embarcações afundam sem deixar sobreviventes.
De acordo com defensores de direitos humanos e relatos de familiares, além daqueles que partem voluntariamente, um número crescente de pessoas tem sido traficado para esses barcos. Chris Lewa, diretora do Projeto Arakan, apontou um aumento significativo nos sequestros no campo de refugiados de Cox's Bazar, onde gangues extorquem dinheiro de parentes de vítimas. Entre os desaparecidos estão jovens como Jani Alom, de 15 anos, e Hamid Ullah, de 20 anos, cujas famílias relataram à CNN que eles foram sequestrados e forçados a embarcar em embarcações rumo à Malásia.
Em meados de julho, a ONU divulgou um comunicado informando sobre o desaparecimento recente de dois barcos que deixaram Mianmar no final de junho, transportando cerca de 500 pessoas no total. As embarcações partiram durante a temporada de monções, período marcado por tempestades imprevisíveis e ondas altas. Segundo Chris Lewa, o primeiro barco virou em apenas 12 horas após a partida, e corpos de cerca de 10 rohingyas foram encontrados na costa norte de Rakhine. O segundo barco navegou por cerca de nove dias antes de virar em 8 de julho no Mar de Andaman. Outro naufrágio em meados de abril já havia deixado 250 pessoas desaparecidas, com apenas nove sobreviventes resgatados.
A situação nos campos de Cox's Bazar, onde mais de um milhão de rohingyas vivem após fugirem da violência e da perseguição em Mianmar — classificada pelos Estados Unidos como genocídio —, é marcada pela escassez de recursos, restrições legais que impedem o trabalho ou estudos fora dos acampamentos, criminalidade e cortes na ajuda humanitária internacional, como a redução de assistência da USAID e do Programa Mundial de Alimentos. Diante do desespero e da falta de perspectivas, muitos refugiados acabam aceitando arriscar a vida em busca de segurança ou oportunidades na Indonésia ou na Malásia, países que não são signatários da Convenção da ONU sobre Refugiados e onde enfrentam recepções hostis e proibição de trabalho.
