A saúde da infância no Brasil enfrenta desafios associados aos efeitos combinados da crise climática, poluição, insegurança alimentar, escassez de água e circulação de doenças infecciosas. Segundo análises do Unicef publicadas no Relatório sobre os Riscos Climáticos para as Crianças de 2026, praticamente todas as crianças do mundo já encaram pelo menos um risco ambiental significativo, como calor extremo, enchentes, secas prolongadas, queimadas, tempestades de poeira e poluição do ar e da água.
No cenário nacional, tais vulnerabilidades agravam-se devido a desigualdades regionais, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. O Painel Crianças e Meio Ambiente do Unicef de 2026 aponta que 94% dos municípios da região Norte registram alta prioridade no indicador de dias com poluição do ar por partículas finas acima do limite da Organização Mundial da Saúde (OMS), impulsionada por queimadas. Além disso, o esgotamento sanitário inadequado atinge nível de alta prioridade em 87% dos municípios nortistas e em 55% dos municípios nordestinos. De um total de 5.571 cidades brasileiras, um estudo isolou 333 municípios com alta vulnerabilidade socioambiental e climática infantil, concentrados majoritariamente na Amazônia Legal e no Nordeste, com as piores avaliações registradas em Pará, Acre, Amazonas e Maranhão.
O impacto da degradação ambiental e sanitária reflete-se no desenvolvimento civilizatório e econômico. O investimento em saneamento básico reduz internações, mortalidade infantil e faltas escolares. No âmbito alimentar, embora o Brasil tenha saído novamente do Mapa da Fome em 2025 conforme a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a desnutrição infantil persiste em grupos vulneráveis, ultrapassando 50% entre povos indígenas como os Yanomami. Paralelamente, o Unicef aponta que a obesidade infantil triplicou nas últimas duas décadas devido ao consumo de alimentos ultraprocessados, tema em debate em um projeto de lei que tramita para proibir a venda desses produtos em cantinas escolares.
Questões de saúde preventiva também marcam o panorama recente. Desde o final de 2025, gestantes passaram a ter acesso pelo SUS à vacina contra a bronquiolite, o que resultou em uma redução de 50% nos casos severos da doença em bebês de até seis meses no período de um semestre. Em contrapartida, um estudo coordenado pelo Instituto Sant Pau (Barcelona) em conjunto com o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fiocruz Bahia, após analisar 30 milhões de nascimentos no Brasil, associou a exposição à seca durante a gravidez a um maior risco de parto prematuro, baixo peso ao nascer e bebês pequenos para a idade gestacional.
A cobertura vacinal brasileira, em queda desde 2016 com reflexos como o retorno do sarampo, apresentou melhoras em 2023 e 2024, mas a hesitação vacinal segue em alta. A legislação, por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente, define como obrigatória a vacinação infantil recomendada por autoridades sanitárias.
