Uma combinação de falhas de cálculo estratégicas deixou a Arábia Saudita vulnerável a uma escalada de conflitos envolvendo o Iêmen e os rebeldes Houthis. O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, que buscava transformar o reino em um polo de turismo e investimentos, vê agora seu território alvo de drones e mísseis, enquanto a guerra civil iemenita se intensifica após o rompimento de anos de relativa calma.
Há onze anos, Riad tenta conter o conflito em sua fronteira sul por meio de força militar e diplomacia, buscando negociar com os Houthis e reatar o diálogo com o Irã. No entanto, analistas apontam que erros recentes comprometeram a segurança do reino. Entre os fatores de exposição estão o rompimento da parceria com os Emirados Árabes Unidos no final do ano passado devido a divergências sobre forças rivais no Iêmen, a avaliação incorreta sobre o apoio do presidente Donald Trump e a dificuldade de organizar facções armadas fragmentadas que combatem os Houthis.
A ruptura com os Emirados Árabes Unidos ocorreu após aviões sauditas atingirem um carregamento de veículos militares enviados ao Iêmen. A saída abrupta de Abu Dhabi gerou um vácuo de poder e desorientou milhares de combatentes que operavam sob comando emiradense, segundo autoridades e analistas locais. Para tentar retomar o equilíbrio, Riad lançou a operação "Alvorada do Iêmen" em apoio a parceiros locais.
A situação regional agravou-se ainda mais após a deflagração de um conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irã, que resultou na morte do Líder Supremo iraniano, Aiatolá Ali Khamenei. O episódio acirrou as tensões quando o Irã enviou um avião comercial para transportar uma delegação Houthi ao funeral de Khamenei, desafiando o bloqueio aéreo saudita. Riad atacou o aeroporto de Sanaa, levando os rebeldes a encerrarem a trégua, anunciarem um bloqueio naval e iniciarem uma ofensiva ao longo da costa iemenita, incluindo ataques com mísseis a aeroportos sauditas que deixaram três mortos, incluindo um piloto.
Diante da nova crise, a dependência do apoio dos Estados Unidos também se mostrou um desafio. Embora tenha assinado um pacto de defesa e recebido a designação de aliado extra-Otan, a Arábia Saudita enfrentou a recusa de Donald Trump em atacar diretamente os Houthis. Para buscar alternativas de segurança, o reino firmou parcerias com a França, o Reino Unido e o Paquistão, além de ativar medidas de dissuasão coletiva junto à Turquia e ao Paquistão sob o Acordo de Defesa Conjunta de Meca. Especialistas alertam, contudo, que os ganhos territoriais recentes e o apoio externo podem não ser suficientes para solucionar o conflito sem a unificação dos centros de comando das facções aliadas e uma resolução diplomática regional.
