Especialistas e representantes do setor agropecuário brasileiro apontam que o país precisa manter relações comerciais equilibradas tanto com a China quanto com os Estados Unidos, independentemente de cenários eleitorais. O tema foi debatido em um evento realizado no Insper, em São Paulo, que discutiu o futuro da segurança alimentar e os impactos para o agronegócio.
Segundo Larissa Wachholz, especialista em China e assessora especial do Ministério da Agricultura entre 2019 e 2021, Pequim tem avaliado a América Latina com cautela para verificar onde seus investimentos e relações comerciais são bem-vindos. Ela destaca que essa postura está ligada ao possível alinhamento de países latino-americanos com os Estados Unidos sob o governo de Donald Trump, uma preocupação que se iniciou no primeiro mandato do republicano e se intensificou no segundo.
Wachholz, que coordena o Programa Ásia no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), ressalta que os documentos internos norte-americanos tratam cada vez mais a América Latina como zona de influência dos EUA. Conforme a especialista, os investimentos chineses exigem estabilidade jurídica e não buscam locais de confronto devido ao alto risco. Para o agronegócio, a presença de aportes chineses ajuda a superar gargalos de infraestrutura e viabiliza a competitividade externa, especialmente no transporte refrigerado de carnes.
Como exemplo, foram citadas a participação da empresa chinesa Cofco no terminal STS11, localizado no Porto de Santos (SP), e a atuação da TCP em Paranaguá (PR), controlada pela China Merchants Port, que concluiu em 2024 uma expansão na capacidade de armazenamento de cargas congeladas.
A avaliação sobre a necessidade de distanciamento entre política e comércio é compartilhada por Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). "Frango não tem partido nem ideologia. Não dá para misturar isso. Isso é muito importante. O agronegócio trabalha para a segurança alimentar brasileira e de 170 países. Então não tem governo que vai atrapalhar um negócio que representa 35% do PIB brasileiro", declarou Santin, acrescentando que não antecipa alterações nas exportações de carnes chinesas devido ao pleito eleitoral.
Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global, também participou do debate e pontuou que a política comercial tarifária adotada por Donald Trump complexificou o ambiente internacional. Para Jank, o Brasil tem a obrigação de manter boas relações tanto com Washington quanto com Pequim, de forma que uma afinidade política maior com uma das potências não resulte no rompimento com a outra.
De acordo com dados do Ministério da Agricultura, a China lidera o ranking de maior compradora de produtos agropecuários do Brasil, sendo sucedida pela União Europeia e pelos Estados Unidos.
