A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, com 51,79% dos votos válidos, abriu uma nova etapa de incerteza na relação com a Argentina. Até o início da tarde de segunda-feira (26), o presidente Javier Milei não havia felicitado o brasileiro, reeleito para um quarto mandato. Milei apoiou publicamente Flávio Bolsonaro, derrotado por 48,21% dos votos, e manteve silêncio mesmo durante uma reunião de gabinete na Casa Rosada.
A omissão ganhou peso porque Flávio Bolsonaro, aliado do presidente argentino, contestou o resultado e anunciou que recorreria à Justiça eleitoral. Segundo relatos publicados em Buenos Aires, integrantes do governo Milei chegaram a preparar uma manifestação de felicitação, mas mudaram de estratégia após o candidato derrotado questionar a eleição. Milei não explicou publicamente sua decisão, limitando-se a compartilhar uma publicação de um deputado de seu partido que criticava Lula e os eleitores brasileiros.
Histórico de tensão e atritos diplomáticos
O silêncio ocorre após meses de ataques e respostas diplomáticas. Em julho, o Itamaraty convocou o embaixador argentino Daniel Raimondi para cobrar explicações por declarações de Milei e chamou de volta a Brasília o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas. Em outubro, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil protestou novamente contra críticas de Milei ao Judiciário e ao sistema de votação brasileiro, classificando-as como interferência no processo eleitoral.
Desde agosto, as embaixadas dos dois países passaram a ser chefiadas por encarregados de negócios, reduzindo o nível da representação diplomática. Os presidentes também vêm evitando encontros em compromissos internacionais, demonstrando que a eleição não criou o impasse, mas prolongou uma crise já instalada.
Impacto na economia e nos negócios futuros
O gesto contrasta com a importância prática da relação entre os países, que são economias profundamente conectadas, com destaque para a indústria e a cadeia automotiva. Dados do Indec apontam que, entre janeiro e setembro, o Brasil foi o principal parceiro comercial argentino, absorvendo 12,7% das exportações do país vizinho e respondendo por 21,4% de suas importações. No mesmo período, as vendas argentinas ao Brasil cresceram 4,5%, enquanto as compras caíram 17%.
Analistas e representantes empresariais apontam que o risco da falta de diálogo presidencial não é imediato para as trocas comerciais, que continuaram funcionando durante o rebaixamento diplomático, mas pode dificultar negociações, reduzir a coordenação entre os governos e atrasar iniciativas de integração no Mercosul.
A expectativa de uma reconciliação rápida é baixa. O governo argentino não anunciou uma data para reconhecer ou felicitar Lula, e a perspectiva é de continuidade do trabalho técnico, com a relação política condicionada à disposição dos dois presidentes para reabrir o canal de diálogo.
