A Síria enfrenta seu maior teste de estresse econômico e político desde a queda do regime de Bashar al-Assad, há quase dois anos. Milhares de sírios saíram às ruas recentemente em protestos generalizados contra a disparada dos preços dos combustíveis, após um reajuste repentino de até 40% promovido pelo governo. A medida foi atribuída à crise energética global provocada pela guerra no Irã.
Apesar de o país viver uma abertura que permite manifestações públicas antes punidas com prisão, tortura ou morte sob o Estado policial de 54 anos da família Assad, a paciência da população vem se esgotando diante da lentidão na recuperação do custo de vida. Diante da repercussão, o governo recuou em parte dos aumentos e enviou o ministro de Energia ao Parlamento para prestar contas.
Analistas apontam que, embora a resposta estatal tenha sido elogiada, os fundamentos da crise continuam intactos. O Banco Mundial estima que dois terços dos sírios vivam abaixo da linha de pobreza para países de renda média-baixa, operando com menos de 3,65 dólares (cerca de 19,08 reais) por dia. Especialistas como Ibrahim al-Assil, da Harvard Kennedy School, e Charles Lister, do Middle East Institute, alertam que as expectativas populares colidem com a realidade econômica, na qual a maior parte dos grandes projetos de reconstrução — estimados em 216 bilhões de dólares, ou cerca de R$ 1 trilhão — possui prazos de longo prazo.
Esforços diplomáticos e reconstrução
Para reerguer o Estado falido e saqueado, o presidente interino Ahmed al-Sharaa tem buscado reinserir a Síria no cenário global para atrair investimentos estrangeiros. Al-Sharaa relatou à Assembleia Geral da ONU que o país restabeleceu status diplomático e virou ponto de passagem internacional. O líder interino reuniu-se com o presidente dos EUA, Donald Trump, o que resultou na suspensão total das sanções americanas contra a Síria, além de manter diálogos pragmáticos com potências como Turquia, Catar, França e Rússia.
Apesar do fim das sanções e de acordos firmados com parceiros internacionais — incluindo compromissos da União Europeia e visitas de líderes como o francês Emmanuel Macron —, economistas apontam que apenas uma fração dos acordos prometidos apresentou avanços concretos no cotidiano. Cidadãos e manifestantes cobram prioridade para melhorias imediatas no custo de vida em vez de gastos com projetos de infraestrutura de alto valor.
O fator Israel
Além dos desafios internos, o governo de al-Sharaa lida com a pressão militar de Israel. O presidente interino denunciou na ONU que Israel lançou cerca de 500 ataques contra o território sírio desde que ele assumiu o poder, ocupando grandes áreas do sul do país. Autoridades israelenses alegam a necessidade de uma zona de segurança contra o terrorismo e mantêm postura de desconfiança.
Síria e Israel mantêm negociações diretas mediadas pelos EUA desde agosto do ano passado. Al-Sharaa afirmou que as conversas haviam alcançado 90% de acordo antes que o lado israelense se retirasse. Analistas destacam que a instabilidade gerada pelos ataques e pela presença de Israel no sul sírio atua como um fator de risco determinante para afastar novos investidores estrangeiros interessados na reconstrução nacional.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/a-siria-pos-assad-enfrenta-seu-maior-teste-ate-agora/
