A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) apresentou uma nova diretriz de tratamento para a insuficiência cardíaca durante o Congresso Mundial de Cardiologia, realizado recentemente no Rio de Janeiro. O evento reuniu 15 000 profissionais e destacou a urgência no combate a uma enfermidade que gera cerca de 250 000 internações por ano no Brasil, com uma letalidade superior à do câncer de mama.
Estima-se que entre 2 e 4 milhões de brasileiros convivam com o problema, número que pode ser subestimado devido a fatores como envelhecimento, hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo e histórico de infarto. Sintomas iniciais comuns, como pernas inchadas, cansaço excessivo e falta de ar, muitas vezes são ignorados ou atribuídos à idade avançada.
As novas recomendações terapêuticas da SBC englobam mudanças que vão desde a administração precoce de medicamentos até a prescrição de exercícios físicos supervisionados. Entre as principais novidades está a mudança na lógica medicamentosa: em vez de introduzir remédios lentamente, a recomendação atual é conjugar classes diferentes de comprimidos o mais cedo possível e realizar ajustes graduais até as doses máximas.
Tratamento medicamentoso e novidades terapêuticas
Para a insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, conhecida como "coração fraco", o plano terapêutico prevê a combinação de quatro classes de fármacos disponíveis no SUS:
- Drogas para baixar a pressão arterial (como a valsartana);
- Betabloqueadores para resguardar o músculo cardíaco;
- Espironolactona, que impede a formação de cicatrizes no órgão;
- Medicações para diabetes tipo 2 aliadas do coração, a exemplo da empagliflozina.
Para facilitar a adesão a múltiplos medicamentos, o laboratório francês Servier estuda no Brasil uma polipílula que combina quatro princípios ativos, com previsão de chegada ao mercado em três anos. Já para a insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (“coração rígido”), associada à diabetes e à obesidade, a principal novidade foi a aprovação do remédio finerenona. As canetas emagrecedoras (análogos de GLP-1) também passam a integrar as diretrizes por atuarem na obesidade e reduzirem a inflamação que afeta o órgão.
Abordagem multidisciplinar e cuidados essenciais
O documento endossa a importância do acompanhamento multidisciplinar envolvendo médicos, nutricionistas, educadores físicos, psicólogos e fisioterapeutas. Uma mudança de paradigma importante é a recomendação de treinos supervisionados, da caminhada à musculação, para melhorar a capacidade cardiorrespiratória e combater a perda de massa magra.
A diretriz também prioriza a vacinação para evitar que infecções como a gripe desestabilizem o sistema cardiovascular. Por outro lado, suplementos alimentares e vitamínicos — como ômega-3, coenzima Q10 e vitamina D — não são indicados devido à falta de evidências científicas robustas.
Segundo a cardiologista Carolina Casadei dos Santos, do Instituto Dante Pazzanese, sem tratamento, 50% dos pacientes diagnosticados morrem em cinco anos, o que torna o aprimoramento do controle da doença um desafio complexo e urgente no país.
