A histórica Tapeçaria de Bayeux retornou à Inglaterra após 950 anos de sua partida rumo à Normandia. O artefato medieval, confeccionado na segunda metade do século XI, é o foco de uma nova mostra no Museu Britânico que já registra ingressos esgotados até o final do ano, com mais de 100.000 entradas vendidas antecipadamente.
O imenso tapete possui 68 metros de comprimento — equivalente a um Boeing 747 quando estendido —, nove painéis de linho e milhares de desenhos costurados. A logística para o retorno da relíquia envolveu o maior seguro já feito por uma obra de arte, avaliado em 800 milhões de libras (cerca de 5,6 bilhões de reais), em uma negociação entre os governos britânico e francês.
O artefato retrata o período entre 1064 e 1066 por meio de 58 cenas bordadas, documentando a campanha e a conquista normanda que culminaram na derrota do rei anglo-saxão Haroldo II pelo duque Guilherme da Normandia. O rei Charles II comentou ao receber o item no país: "É o lado francês da história da minha família". Já o presidente francês, Emmanuel Macron, destacou a colaboração entre as nações, afirmando que a obra atravessa o canal por um túnel construído em conjunto.
A tapeçaria funciona como registro visual da Batalha de Hastings e da crise sucessória gerada pela morte do rei Eduardo, o Confessor, que faleceu sem deixar herdeiros. Haroldo II governou por oito meses antes de ser deposto por Guilherme da Normandia, que invadiu a região com 8.000 homens e 700 navios sob a alegação de que Eduardo, seu primo, havia lhe prometido o trono.
A autoria da peça é debatida por historiadores, mas a tese mais aceita aponta que a encomenda partiu do bispo Odo de Bayeux, meio-irmão de Guilherme, o Conquistador, com confecção realizada por bordadeiras inglesas. O historiador brasileiro Paulo Christian Martin Marques da Cruz, pesquisador da Unifesp, aponta que a obra servia como instrumento de legitimação e comunicação da conquista. Discussões acadêmicas também envolvem o trecho final aparentemente faltante da peça, cuja hipótese principal sugere um apagamento proposital da legitimidade normanda.
A trajetória da tapeçaria inclui usos nacionalistas e políticos ao longo dos séculos. No século XIX, Napoleão Bonaparte a exibiu no futuro Louvre para arrecadar fundos para campanhas. Adolf Hitler posteriormente tentou utilizá-la para justificar o expansionismo do Terceiro Reich, e tropas nazistas tentaram capturar o item durante a Segunda Guerra Mundial, chegando a se apossar de dois fragmentos que foram devolvidos à França no início do ano.
