O dilema do vice-presidente
É o dilema clássico: a criatura se voltando contra o criador. Com todos os cuidados devidos, é o que começou a fazer o vice-presidente JD Vance, perfeitamente consciente da impopularidade de todas as principais iniciativas de Donald Trump, inclusive nas áreas mais vitais, como economia e a postura em relação ao Irã.
“Não estou pedindo a ninguém que concorde com todas as políticas do governo. O que estou pedindo é que reconheçam o contraste com os radicais e reconheçam as conquistas dos últimos 18 meses”, declarou Vance na recente convenção republicana. “Não joguem o bebê junto com a água do banho. Não entreguem o país a um bando de malucos porque vocês discordam de um ponto aqui e outro ali”.
Necessidade de distanciamento
Essas palavras indicam um cauteloso afastamento. O vice que almeja a presidência precisará se descolar de posições centrais do governo Trump que o público rejeita crescentemente. Nos Estados Unidos, a tendência nas pesquisas é incontestável: Trump enfrenta baixos índices de aprovação, com destaque para levantamentos da Universidade de Quinnipiac que registraram apenas 33% de aprovação ao presidente.
A possibilidade de Trump perder a maioria na Câmara dos Deputados em novembro supera 80%, o que deslocaria o foco político para um possível impeachment. Políticas centrais enfrentam forte rejeição: economia (32% de aprovação), Irã (29%), política externa (33%) e sanções ao Canadá (28%). Medidas simbólicas, como a renomeação do Lago Ontário para Lago América, contam com 70% de rejeição.
O futuro das eleições
Vance enfrenta um cenário similar ao que Kamala Harris viveu ao carregar o peso da impopularidade de Joe Biden. Em um possível confronto em 2028, a oposição democrata certamente explorará as iniciativas de Trump das quais Vance terá dificuldade em se desvencilhar.
Embora tenha aprimorado seu discurso e aparência — inclusive perdendo peso com uma dieta recomendada por Bobby Kennedy Jr. —, Vance ainda precisa equilibrar seu afastamento do chefe sem romper politicamente. Enquanto isso, nos bastidores democratas, Kamala Harris ainda é vista como o nome mais conhecido, apesar das críticas à sua falta de consistência e conexão popular.
