Criminosos estão utilizando o TikTok para promover a venda de conteúdo de abuso sexual infantil, direcionando os interessados para o Telegram. O esquema foi identificado após um monitoramento realizado por semanas em mais de 30 perfis na plataforma de vídeos.
De acordo com o levantamento, a divulgação ocorre nos comentários das publicações por meio de códigos criados para driblar os sistemas de fiscalização. Os criminosos utilizam diversos tipos de vídeos como porta de entrada — desde gravações simples, como um gato dançando, até conteúdos com crianças e montagens geradas por inteligência artificial, a exemplo de uma versão simulada do bilionário Jeffrey Epstein.
No Telegram, o material é comercializado em pacotes que contêm fotos e vídeos. Os pagamentos são realizados por meio de criptomoedas ou PIX, com valores a partir de R$ 10, reduzidos pela forte concorrência entre os vendedores. Antes de concluir as transações, os criminosos frequentemente enviam amostras gratuitas ou vídeos autodestrutivos para comprovar a veracidade do material. As vendas ocorrem por meio de conversas com robôs (bots), chats privados ou páginas internas baseadas em JavaScript, chamadas de miniapps.
A legislação brasileira prevê penas severas para esses crimes. Conforme explicou Ana Cláudia Cifali, coordenadora jurídica do Instituto Alana, a proteção digital infantil é amparada pela Constituição Federal e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Uma nova lei sancionada em 6 de agosto de 2026 estabelece reclusão de 4 a 10 anos para quem produz ou vende esse tipo de material, e de 3 a 6 anos para quem adquire ou possui os arquivos.
Investigadores da Polícia Federal apontam que o uso de PIX revela a falsa sensação de segurança dos criminosos, que frequentemente utilizam contas de terceiros. Contudo, as transações deixam rastros que auxiliam no rastreamento e na identificação dos compradores. Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que o Brasil registrou 4.063 casos de material de abuso sexual infantil em 2025, um aumento de 23% em relação ao ano anterior.
Procuradas, as empresas se manifestaram sobre o caso:
- O Telegram informou que proíbe expressamente a distribuição desse tipo de conteúdo e que excluiu mais de 339 mil grupos e canais relacionados ao tema em 2026, utilizando moderação humana e varredura de arquivos por bancos de dados de hashes.
- O TikTok declarou que remove publicações irregulares de forma rápida, bane as contas envolvidas e emprega tecnologia avançada para monitorar e proteger jovens.
- A Meta pontuou que investe em tecnologia para detectar preventivamente violações às suas regras de proteção contra exploração e abuso infantil.
