A chegada da BYD e a transformação de Camaçari
Em uma noite de sexta-feira, o futebol era brasileiro, mas o idioma em campo misturava português e mandarim. Sob os refletores da Epic Arena Boulevard, em Camaçari, cidade a 50 quilômetros de Salvador, funcionários da BYD, montadora de carros elétricos, disputavam um “baba”, como os baianos chamam a pelada entre amigos. Dos 22 jogadores, sete eram chineses. De meiões e chuteiras, eles não exibiam a mesma intimidade dos colegas brasileiros com a bola, mas compensavam com disposição.
Entre os que aguardavam para entrar em campo estava Yang Zuopeng, de 40 anos, responsável por treinamento e inspeção de qualidade na montadora. Yang joga ali toda semana, mas a conversa com os brasileiros exige ajuda tecnológica. No celular, ele digita em mandarim e mostra na tela a tradução para o português. Foi assim que descreveu Camaçari como uma cidade “muito boa” e de gente acolhedora.
O fenômeno que se espalha pelo Brasil
Nos últimos anos, a baiana Camaçari passou a receber engenheiros, técnicos e trabalhadores chineses envolvidos na implantação do complexo da BYD. Eles já ocupam quadras, restaurantes, supermercados, hotéis e condomínios. Aos poucos, integram-se à rotina local e ajudam a modificá-la. Os profissionais geralmente permanecem na cidade por dois ou três meses, em sistema de rodízio. A missão é transferir conhecimento e capacitar as equipes locais.
Em 2025, foram concedidas 10.131 autorizações de trabalho a cidadãos chineses no Brasil, mais do que o triplo de 2023. Neste ano, as autorizações emitidas já somam 8.206. Impulsionada pela BYD, a Bahia assumiu a liderança nacional nos pedidos, com 3.736 registros, ou 45,5% do total, seguida por São Paulo, com 3.176.
Desafios e adaptações
Em 2024, uma fiscalização identificou mais de 160 chineses atuando em condições degradantes na construção da fábrica da BYD em Camaçari. Posteriormente, as empresas terceirizadas responsáveis pelos trabalhadores fecharam um acordo de indenização de 40 milhões de reais, tendo a BYD como fiadora. Neste ano, a montadora ficou de fora da “lista suja” de trabalho escravo do governo federal, com o argumento de que seu contrato com a empresa envolvida foi encerrado logo após as denúncias.
Vez ou outra, surgem reclamações de trabalhadores brasileiros sobre a forma como alguns gestores chineses tratam as equipes. “Existe um choque grande de cultura trabalhista, mas isso está sendo ajustado aos poucos. A BYD chega ao Brasil com práticas adotadas na China e precisa se adaptar à nossa realidade. É uma questão de tempo”, diz Júlio Bonfim, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari.
Impactos econômicos e sociais
Pelo lado positivo, há reflexos econômicos da chegada da BYD que ultrapassam os portões da fábrica, com o aumento na geração de empregos formais, a abertura de novas empresas e o incremento na arrecadação de impostos municipais. O setor imobiliário também está aquecido. No Jardim Limoeiro e na região do Ponto Certo, apartamentos antes alugados por 700 reais mensais passaram a custar cerca de 1.500 reais.
Para resolver o gargalo da moradia, a própria BYD constrói, a 3,5 quilômetros da fábrica, um conjunto residencial destinado a seus funcionários. Inspirado em um modelo adotado em Shenzhen, o projeto ocupa 81.000 metros quadrados e terá capacidade para acolher um total de até 4.200 pessoas. No canteiro, avisos como “homens trabalhando” e “risco de queda de material” aparecem em português e mandarim.
Camaçari como polo de mobilidade elétrica
A prefeitura, por sua vez, pretende aproveitar a tecnologia trazida pela montadora para modernizar os serviços públicos. Os planos incluem semáforos inteligentes, ampliação do sistema de câmeras, novas ferramentas para saúde e educação e uma frota de ônibus elétricos, em parceria com a BYD e o governo estadual. Historicamente associado às indústrias petroquímica e automobilística, o município busca se consolidar como polo de mobilidade elétrica e transição energética.
“Queremos transformar Camaçari na cidade mais elétrica do Brasil”, diz o prefeito Luiz Carlos Caetano.
