Em meio a uma rigorosa análise jurídica nas eleições deste ano, os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) passaram a barrar candidatos suspeitos de envolvimento com o crime organizado. Ao todo, 20.742 candidatos disputam cargos no Legislativo entre câmaras estaduais e a federal.
Orientados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os tribunais regionais adotaram critérios mais rígidos para impedir que o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas se tornem abrigo para integrantes de facções criminosas. Um levantamento exclusivo realizado pela revista VEJA junto aos 27 TREs aponta que 22 postulantes tiveram os registros impugnados em cinco estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Paraíba, Bahia e Amapá. Embora possam recorrer e aparecer na cédula, os candidatos correm o risco de ter os votos anulados caso as decisões sejam mantidas.
Muitos dos alvos não possuem condenações em segunda instância, escapando dos critérios tradicionais da Lei da Ficha Limpa, mas são apontados como suspeitos de servir a interesses de quadrilhas. O Rio de Janeiro concentra o maior número de vetos, com 15 casos, impulsionado pela disputa territorial entre Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e milícias.
Entre os nomes barrados no estado fluminense estão:
- João Drumond (PRD): candidato a deputado estadual e neto do bicheiro Luizinho Drumond, ex-patrono da escola de samba Imperatriz Leopoldinense.
- Cristiano Hermógenes (Avante): candidato a deputado estadual e irmão de Marcinho VP, apontado como chefão do Comando Vermelho.
- Mariana de Souza (PP): candidata à Câmara dos Deputados e casada com um líder da facção carioca.
Nos autos judiciais, os citados negam qualquer vínculo com organizações criminosas e sustentam a ausência de provas impeditivas. O desembargador Claudio de Mello Tavares, presidente do TRE fluminense, afirmou que o crime organizado não terá candidato deferido. Devido à pressão das facções sobre o eleitorado, o tribunal determinou a transferência de 72 locais de votação em vinte cidades, impactando ao menos 200.000 eleitores.
As medidas adotadas pelas cortes baseiam-se em um artigo da Constituição Federal que proíbe partidos políticos de manter integrantes de organizações paramilitares em seus quadros. A brecha jurídica foi aberta em 2024, quando o TSE barrou a candidatura a vereador de Fabinho Varandão em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. A atuação do Judiciário ocorre após o Congresso Nacional deixar de tratar do tema na reforma da Lei de Improbidade ou na Lei Antifacção.
Em São Paulo, estado com forte atuação do PCC, a Procuradoria Eleitoral utilizou denúncias recebidas pela Justiça como critério para impugnar as candidaturas de Ney Santos (Republicanos), postulante a deputado federal, e Emerson Dias Rocha (Podemos), que tentava vaga na Assembleia Legislativa, ambos acusados de lavagem de dinheiro para a facção. Na Bahia, o deputado estadual Kléber Cristian Escolano de Almeida, conhecido como Binho Galinha (Avante), tentava a reeleição mesmo estando preso preventivamente desde 2025 sob suspeita de chefiar uma quadrilha.
