Durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (22), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comparou os cartéis de drogas ao grupo terrorista Estado Islâmico. De acordo com o mandatário norte-americano, as organizações criminosas representam o "Estado Islâmico do hemisfério ocidental" e precisam ser combatidas com o uso de força militar na América Latina.
O analista de Internacional da CNN, Lourival Sant’Anna, avaliou ao CNN Prime Time que a retórica adotada por Trump funciona como uma justificativa narrativa para projetar o poder militar dos Estados Unidos na região. Segundo o especialista, essa diretriz está documentada em estratégias oficiais de defesa e segurança nacional formalizadas no ano passado, que preveem a realocação de forças militares — incluindo porta-aviões — do Indo-Pacífico e do Oriente Médio para o hemisfério ocidental.
Contradição no combate às drogas
Apesar do foco militar na América do Sul, Sant'Anna apontou uma divergência em relação às estatísticas de mortalidade por overdose nos Estados Unidos. O país registra cerca de 100 mil mortes anuais por overdose, sendo aproximadamente 80 mil causadas por opioides sintéticos, como o fentanil, cujos precursores químicos originam-se na China e passam por processamento no México. Em contraste, a cocaína sul-americana responde por apenas um quinto dos óbitos.
"No entanto, ele está concentrando muito mais as energias militares sobretudo contra os países aqui da América do Sul, do que propriamente contra esse tráfico que de fato causou uma epidemia de opioides sintéticos nos Estados Unidos", destacou o analista.
Sanções do Escudo das Américas e impacto para o Brasil
Em desdobramento ao discurso, a coalizão Escudo das Américas, formada por 19 países do hemisfério ocidental, impôs sanções contra 24 organizações rotuladas como narcoterroristas, listando grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho. As medidas englobam o congelamento de ativos, restrições imigratórias e de vistos, e responsabilização criminal para quem prestar suporte material ou logístico.
O pacto foi chancelado por 15 dos 19 países integrantes e estabelece ampliação na cooperação tecnológica e de troca de informações de segurança. O Brasil ficou de fora da iniciativa, situação que, na visão de Lourival Sant’Anna, gera um isolamento considerável nas políticas públicas nacionais. O analista pontuou que a recusa em participar não indica apoio governamental ao crime organizado, mas reflete divergências nos métodos de enfrentamento.
Como consequência das sanções multilaterais, o Brasil enfrentará pressões e sobrecargas em setores diplomáticos, de segurança pública nas fronteiras, de emissão de vistos e, principalmente, no sistema financeiro e bancário, que lidarão diretamente com os reflexos das restrições impostas às facções brasileiras.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/analise-na-onu-trump-compara-carteis-ao-estado-islamico/
